Previsão do Tempo

Faz sol em Porto Alegre. A previsão do tempo indica diminuição da temperatura com a limpeza do céu. Agora, neste momento, o vento empurra as malévolas nuvens e apresenta um sol com a possibilidade de secura. A secura inenarrável do sol sob o frio. Um boletim otimista para quem se recolhe sob a chuva. E pensar que tem gente que recepciona a gelidão úmida e resiste, sem dor, aos dias. É furiosamente difícil enfrentar esse tipo de coisa quando seu expediente é interno. Mesmo não sendo só interno, ele o é, em muito ou no suficiente para não sair de casa. E é por isso, também, que eu preciso de um cachorro. De um cachorro louco, de preferência que vai tumultuar, depender de mim, mas tão completamente que não poderei reclamar, depois. Sonho com a chegada e com a trabalhareira do cachorro, sobretudo agora, em que um certo tempo de espera revelou, antes de qualquer coisa, a constatação de que paranóia não chega aos pés da forma constituída e indubitável do desprezo.
Não queira entender. Não dá.
Então, a previsão do tempo precisa ser melhor apresentada.
Começa o inverno, hoje. Fontes que não quiseram se identificar dão conta de que no inverno as pedras descem mais rapidamente ao fundo, como obedecendo às leis da decantação. Sem poeira, sem alergia. Não fosse o excesso de água, não fosse o excesso de chuva, não fosse o silêncio esquisito de toda decantação, aquele silêncio que demora do lado de cá e é acelerado do lado de lá, seria sempre ótimo. Ótimo como o céu recém aberto e o sol dizendo que está aí e as nuvens, nem sempre.
Eu busco, em vão, o olhar de Coetzee sobre as coisas e o sobre o tempo. Se é em vão, que pelo menos console a respeito da pertinência e de que pertinência é o caso a vida.
Fui na praça. Estava cheia mas nem tanto. Acho que nunca tinha visto tanta polícia reunida. De motos novas, bem vestidos. Aquela confusão geral a respeito de quem é criminoso, que a polícia tem o vício de cometer, gerar e ser vítima de. E o jornalão de hoje, que escolheu inclusive musas de CPI. Inverno.
Só quem não entende coisa alguma pode dizer que o inverno é escuro, quando o que ele é, é nítido.
Em tempo, quem não viu The Savages – A família Savage – que acaba de sair em DVD, com os dispensantes de comentário Laura Linney e Philip Seymor Hoffman, vá pegar. E não gaste nem um real com a chinelagem do Shyamalan: é a maior conjunção de erros e falcatruas que se pode cometer no cinema. Nas raias do surrealismo. Um filme em que o diálogo central é: “antes que o mundo acabe, eu preciso dizer que te traí com um tiramissu”. Juro que a intenção disso não é bem sucedida como comédia. E tem uma onda de suicídio em massa que se atribui à natureza. Hitchcock correria para debaixo da cama, apavorado. Não é a natureza que não explica, visto que explicar é propriedade do pensamento; somos nós que estamos em dívida de sentido, à medida que nos intoxicamos com o delírio da explicação absoluta, vejam só, exatamente do que não é natural.
E é por isso que o corpo é importante. E que ele agradece esse afastamento das nuvens. Cachorro, vencer cochonilhas, descobrir Händel depois de adulta, refazendo os arranjos e peças na cabeça, na memória. Aceitando as músicas que, enfim, podem ser escutadas sem aquela carga de outros, para quem a música jamais foi respeitada, enquanto tal.
Não queira entender. Este boletim do tempo encerra aqui. Com o registro de que boas previsões do tempo não prevêem, mas rememorizam e que, portanto, só deveriam ser feitas quatro vezes ao ano em zonas subtropicais. O resto, o corpo prova e assim deve ser. Como o fazem os cachorros e os gatos.
A única coisa boa diante do quadro de desgoverno do Rio Grande do Sul, a propósito, é a experiência ofertada da insignificância dos párias do poder delirantemente constituído. Esse desprezo, sim, é excelente e dá gosto de vida ao pôr os pés na calçada, para onde me dirijo, já que suas pedras estão melhor estruturadas, lá no fundo.
ps: a foto acima, retirada de blog português, é inspirada no magnífico O Desconforto da Riqueza, de Simon Schama. A inspiração é minha escolha, bem entendido. E se você não leu, ainda, ou não está lendo, não queira entender essa interpretação. Hasta.
Escrito por Katarina Peixoto às 15h43
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Praça sem freio de mão

Hoje é dia de ir para a praça. E levar a sério esse direito pelo qual tantos morreram e foram torturados, que é o de ir e vir, de ter o direito de criticar e se reunir. O direito de ser baderneiro, que baderna, vejam bem, não é tipificada. E de dar nome e objeto ao que tem nome e objeto, por mais difícil que seja fazê-lo com palavras...
Um horror está assolando o Rio Grande do Sul. É horroroso e nefasto. E nada menos.
Quem não está uivando de quatro na selva sabe que toda corrupção depende de uma relação de poder nefasta. É difícil escrever algo capaz de expressar aquilo que um murro na cara, um cuspe no rosto ou uma palavra humilhante podem significar. É difícil palavrear algo depois do festival de niilismo, barbárie e delírio religioso de um senhor que, até outro dia, era tomado como referência de de liderança política e que aliou, num espetáculo de horror jamais visto, a complacência frente à barbárie com o religiosismo mais rastaquera e fashion week da paróquia.
Simplesmente é o caso de agir, e agir é coisa que se faz, em algum sentido muito caro a quem pensa, antes. A gente age porque é, ainda que seja razoável e prudente pensar muito antes de realizar a ação x. É por isso que toda vez que vejo a governadora falando eu tenho pena do seu metabolismo cerebral e tenho ainda mais nojo, do resto, sobretudo aquele segundo o qual faz-se algo, porque se é assim.
Então, quem não está de quatro uivando no meio do mato sabe que toda corrupção depende de autoritarismo. Chega um momento na vida em que prestar atenção às frases feitas reclama sentido. É o momento em que se mira o mundo enquanto parte dele e não como um ser em potência, a ruminar possibilidades universais, como Michelângelo sem braços. É o momento em que carne, pedra, sangue, árvore, pés, olhos e paisagens ganham contornos, saturados, fixos ou fixados. E vivos. Pode ser cachorro ou gato. Pode ser o seu amor, um par de olhos, um jeito de caminhar Pode ser a turma que cumpre expediente nas ruas do BomFim, pedindo esmolas, barriga grande, barriga pequena, nova barriga, mais uma caixa de leite e um saco de arroz, sem engraxar (???) sapatos. A vida de bairro começando a ficar cercada, no supermercado, na locadora, em todas as calçadas, nas mesas.
Não tenho moeda, não tenho prefeito, nem governador, nem ministério público. Quem tem essas coisas é o MST. Se ficam pelas ruas é mais fácil a polícia chegar e descer a disciplina da qual sai extermínio, que extermínio é responsável fiscalmente.
Diabo é quando essa gente decide que é gente e se organiza. Diabo, mesmo, é que eles não formam esquema de saque ao estado, às custas da violência policial sem freio de mão, como falou a liderança.
Diabo é ver uma instituição como o Ministério Público aprovar gente para quem a história do Brasil comporta movimento político-militar de 64 – sic, cof. Digam-me: de onde vem que promotores de justiça chamem golpe militar e ditadura de movimento político-militar? Isso não constitui uma falsificação documental rigorosamente grotesca? Como uma coisa que não sobreviveria a um vestibular sério pode ter sido aprovado no MP estadual?
Horror tantos filistinos com poder. Filistinos do seu próprio povo. Filistinos que pretendem, numa república, controlar os passos que servidores públicos podem dar nas ruas e calçadas, como fez a secretária, vejam só, de educação.
A autoridade sempre teve como condição de possibilidade uma delegação que não é imaginária; uma delegação de poder em certa determinante medida instransferível. A delegação instransferível da própria consciência. A não-delegação de quem é, de fato, a liderança. Logo mais, lideranças dos próprios juízos, a Praça da Matriz está liberada porque ela é nossa e a Constituição autenticou. A constituição tirou o freio de mão das praças. E o nome disso é estado de direito.

Escrito por Katarina Peixoto às 00h03
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Qual é a música do I Fórum de Mídia Livre?

“Emancipamo-nos do medo da razão, o fantasma que assombrou o século XVIII: ousamos novamente sermos absurdos, infantis, líricos; numa palavra, 'somos músicos'.” (Nietzsche, A Vontade de Potência)
O I Fórum de Mídia Livre, ocorrido em 14 e 15 de junho no Rio de Janeiro, celebrou e debateu o fim da inocência no campo da democracia na comunicação. Em dois dias de trocas de experiências de democratização das mídias e de debates sobre regulamentação e partição de recursos de financiamento da comunicação não-capitalista no país, uma tensão um tanto silenciosa se apresentou, uma vez mais. Não é algo muito distinto da luta interna ao Fórum Social Mundial, mas, no caso do debate midiático, essa tensão se expressa de modo especialmente poderoso. De um lado há a defesa do fim da inocência no debate sobre mídia e liberdade de expressão e, do outro, a de “fazer mídia” em busca de um lugar sob o sol, isto é: de espaço e recursos, sem, necessariamente, pretensões refletidas de ter poder. Essa tensão não ocorre entre grupos distintos, formados e fechados no interior desse Fórum; ela se estabelece no âmbito das idéias, das posturas, das consciências e das falas dos seus participantes. Possivelmente de quase todos, até.
É uma variante, ao mesmo tempo recuada (retranqueira, para usar um termo futebolístico) e rígida, do conflito que atravessou o século XX em proporções gigantescas. Parece uma guerra fria não-refletida, marca da grande confusão e abertura que caracterizam o atual estado de coisas no planeta. E já que o objeto desse embate é a comunicação, neste mundo e nesta conjuntura, essa variante se apresenta com um privilégio peculiar: a relação entre mídia e poder político parece ser um dos únicos laços - rigorosamente internos e cultivados na confiança - que avança nas sociedades contemporâneas. Portanto, é de supor que os interesses políticos e os midiáticos se encontrem.
O que não deixa de ser surpreendente é a dificuldade que os desempoderados que participam dos Fóruns parecem ter perante esse laço. É como se o vínculo entre política e comunicação (e não seu conteúdo e protagonistas), fossem o que ameaça a liberdade de expressão e a democracia. Assim, o problema estaria no poder, tout court, e não na qualidade ou na maneira como o poder é exercido. E, se o poder é tomado abstratamente, separado de outras coisas, por que a comunicação não o seria? Sob o triunfo dessa intransitividade está uma paranóia, espécie de medo anticoletivo, sem o qual, paradoxalmente, a democracia não permanece ameaçada.
Uma paranóia anti-poder que torna um Holloway o guru intelectual de uma geração (mesmo que ela não seja ou não esteja exatamente sabendo disso). Como um estado maniático de temeridade empedernida, essa paranóia se expressa de várias maneiras, tornando-se séria candidata a censurar, inclusive, a expressão midiática crítica à aliança que ameaça a liberdade de expressão e, portanto, a democracia.
Poder político, Estado e coletivismo ocupam, nessa paranóia, uma posição de objeto abstrato de ódio. Um ódio fruto da irreflexão que jamais os apoderados, da política e da mídia, cometem. Em cada denúncia de “estatismo”, em cada ataque à atuação republicana – um tanto inédita na história brasileira – da Polícia Federal, em toda criminalização dos movimentos sociais e da organização da sociedade civil está a consciência refletida, rigorosa e intransigente, do laço confiante entre poder político e mídia. Esse já seria um elemento mais do que suficiente para questionar o medo que esse vínculo do e com o poder impinge à via social. O que acontece que isso não ocorre? Quando é que a ressaca do delírio individualista anos 90 vai passar?
Uma das coisas que se aprende quando se sai da casa dos pais é que os ralos dos banheiros e cozinhas precisam ser limpos. Perder a inocência, como lembrou Dario Pignoti, do Página 12, na abertura desse Fórum, sempre custa caro. É preciso saber para onde se está indo e, ainda mais, onde se está. A aversão à política na juventude não passa de uma mentira (aliás confirmada pela enorme e nacional participação de centenas, estudantes inclusive, nesse primeiro Fórum de Mídia Livre), isso é certo; mas qual é mesmo a política que tem ocupado a juventude engajada nesses Fóruns e que organiza suas ações – que, sim, existem e são variadas e riquíssimas? Ela é pensada enquanto política ou – irrefletidamente – como um “fazer a sua parte para melhorar e qualificar a comunicação”?
Em boa gramática, quem comunica, comunica algo a alguém. E como nem essa nem regra alguma caiu de pára-quedas no mundo, a tese de que o problema da mídia hoje é de método e de linguagem e não de conteúdo (tese abundante dentre muitos participantes desse Fórum), mais parece um círculo quadrado. Coisa tão bizarra como a afirmação da atual governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, ao responder a um jornalista sobre o que fez um dos seus mais importantes secretários cair, no contexto do horror que assola o estado: “para você ver, uma foto, uma fotografia faz o secretário cair”, sem pestanejar nem referir-se ao que está fotografado nem a quem a fotografia foi mostrada, isto é, sem referir-se ao que uma foto comunica. Fotos não são intransitivas e tampouco o são o método e a linguagem e isso é tão trivial como o raciocínio de um crente na revista Veja, a mais recente força-tarefa midiática nacional.
Abrir mão do conteúdo e dos protagonistas da relação entre mídia e poder é não apenas descaracterizar a responsabilidade gerada com o fim da inocência como incorrer na desconstituição gramatical da comunicação; é apostar no caráter irrefletido do fazimento de mídia e no combate às crenças mercadológicas que vendem desinformação e demais mentiras nos quiosques midiáticos.
A descolonização dos corações e mentes que foram sequestrados pela fantasia da intransitividade da comunicação e do jornalismo em particular depende de muitas coisas, inclusive ainda não-sabidas. Isso é certo; mas há pelo menos duas coisas sem as quais nem fazer mídia nem qualquer combate anti-aparência na sociedade e na Política podem fazer sentido: a responsabilidade perante o fim da inocência quanto ao que aparece enquanto informação, escrita e imaginada, e o compromisso com aquilo que já está se fazendo, isto é, a reflexão sobre aonde já se chegou. Não é pouca coisa ter a Petrobrás patrocinando um encontro, numa universidade pública, que visa a regulamentar, partilhar recursos e questionar a fundo o reino da aparência que responde, de modo dominante, irregular e concentrador, pela comunicação no país. Não é irrelevante lutar pela autenticidade da descrição do real, sobretudo quando essa autencidade, no Brasil em particular, apresenta a desigualdade e a violência, a riqueza e a diversidade de seu povo e natureza.
Essa luta, além de necessariamente transitiva, merece ser refletida. E para isso é preciso perder aquilo que Nietzsche chamou de “medo da razão”. Pensar sobre o que já está sendo feito, sobre o que já se alcançou, sobre o que se está (e, correlatamente, sobre o que não está nem pode) mudando na realidade, para além das intenções, umbigos e desejo de espaço é passo determinante da luta pela democracia, na mídia e em todos os aspectos da vida social. Só que é um passo que requer confiança. A autoconfiança que nos tira da posição (como bem lembrou Ivana Bentes, uma das organizadoras do encontro) reconfortante do discurso da falta e que leva a sério a gramática de que se faz a comunicação; por conseguinte, a confiança nos pares, nos diferentes e nos iguais.
Como se sabe, Friederich Nietzsche defendia o melos (melodia) não o logos (palavra) como fonte confiável de descrição da realidade. É na música, tomada em sua acepção logicamente antecedente à palavra e também como metáfora, e não no discurso, que se encontra, segundo Nietzsche, a realidade. É essa acepção de música que pode libertar das amarras que a aparência de informação introduziu e precisa manter na sociedade, com o poder das forças-tarefas, de Veja e grande elenco. Sermos “músicos” quer dizer, entre outras coisas, que a experiência e a vida da sociedade dependem de mais do que palavras e medos que nos habitam; e que comunicar é e deve ser verbo de transitividade direta e indireta porque faz sentido que seja assim, como melos, como confiança e, então, como liberdade.
Publicado na Carta Maior, aqui: http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3913
Escrito por Katarina Peixoto às 22h25
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