O sonho de Cassandra denunciado por Woody Allen

Por que Woody Allen fez mais essa versão de Crime e Castigo, dois anos depois da última (Match Point, 2006)? E qual é o sentido de dividir Raskolnikov em dois, esquizofrenizando às últimas conseqüências o embate entre legislação moral e legislação, se assim se pode dizer, jurídica? O filme é uma maravilha e é terrível, aliás mais terrível que Match Point, em que as similitudes frente à obra de Dostoievski parecem mais evidentes. Allen, desta feita, estabelece uma cumplicidade entre nós e os criminosos (o duplo raskolnikov, vivido pelos excelentes Ewan McGregor e Colin Farrell) que em nada se assemelha ao papel do arrivista vivido por Jonathan Rhys Myers, na segunda versão, também filmada na Inglaterra. Não é que nós saibamos o que eles vão fazer e o que eles são; em Cassandra's Dream nós estamos ali passo a passo do próprio ato, da deliberação atormentada e da decisão atabalhoada, do passo antes do tiro, do desmantelo da culpa, depois.
É uma tragédia? Difícil ter certeza, pelo menos diante da estratégia de esquizofrenização de Raskolnikov. Ao sacar um duplo pode-se ainda acusar uma inconsciência frente ao destino ou ao que determina os sujeitos? Pode-se dizer que os irmãos e o tio mandante não sabiam o que Paulo de Tarso já disse há séculos? Quem é mesmo que não sabe que ao crime segue-se castigo e culpa?
Então fica complicado sustentar que se trata de uma tragédia. Ao mesmo tempo, é evidente que um mesmo diretor realizar três variantes do mesmo texto literário num espaço de menos de vinte anos (Crimes e Pecados é de 1989, Match Point, 2006 e agora este, de 2008), quando o diretor é Woody Allen, dá a impressão de que ele está acusando algo. Isso mesmo, acusando. É claro que Dostoievski e Woody Allen dificilmente darão coisa ruim e que mil filmes não esgotam uma grande obra. Mas o que quer dizer isso? Saí do cinema achando que Allen estava como que assumindo uma função pastoral, como fosse um rabino a realizar lectures para o seu pessoal, acusando, denunciando e convocando-nos a sermos menos cretinos e cegos, menos medrosos e covardes, menos mentirosos e lacaios.
Ewan McGregor e Colin Farrell (que está excelente, comprovando a tese de que o diretor faz o ator) são, respectivamente, a face externa e a interior, de Ródia. A que assume como sua a dominação, via violência e barbárie, através da tese de que o direito é coextensivo, normativamente, à força e de que, portanto, os fracos e culpados e perdedores de toda sorte não têm vez é vivida pelo irmão bonzinho, o rapaz ligado à família e adaptado (McGregor). O rapaz mente mas parece ser penalmente inofensivo (ainda que saqueie o cofre do restaurante do pai), até que se apaixona e continua mentindo: vai acumulando débitos em respostas coerentes e se apavora progressivamente. O irmão, Terry, é adicto, de jogo, de boleta, fumante e bebente. Perde e ganha mas se endivida e muito. Também dá passos maiores do que as pernas, mas não é para manter mentira, e sim para suportar a própria verdade: é um mecânico, sem futuro, filho looser.

O tio rico da família (Tom Wilkinson) – mais uma vez o operador da miséria, assim como em Match Point – encomenda o crime prometendo o futuro que Raskolnikov precisava aventar. Ambos os Ródia, aliás. Um, para pagar dívidas; outro, para pagar pelas mentiras e mantê-las, ao lado da amada.
Filme é tão cuidadosamente bem feito e bem acabado que chega a assustar. Absolutamente todos os detalhes, o cenário, a fotografia, a música que vai se tornando difícil, de Philip Glass, tudo vai nos comprometendo e imputando. Este talvez seja o saldo da lecture, enfim: a imputação de um sequestro de que todos somos cúmplices. Um sequestro que termina, invertendo as coisas, tornando o real um destino, já que a evasão pelo crime e pela covardia se apresentam como única saída.
O Sonho de Cassandra também me lembrou uma máxima fáustica, com a qual Goethe expressa o esgarçamento brutal de um sujeito que celebra um mau pacto: “Duas almas, habitam em meu peito; e cada qual está ávida por abandonar sua irmã!”. Woody Allen, através da ligação que estabelece entre nós e o personagem atormentado e fragilizado, talvez a única coisa não-mentirosa em toda a coisa, de Terry (Farrell), dá tratamento generoso frente à organicidade do sofrimento, ao comprometimento integral, à entrega da carne, com e nesse personagem. Um olhar tão obediente a si que se torna normativo, como se nos dizendo, sobretudo com o desfecho do filme, que a escolha esquizofrenizante, duplicante e covarde só pode conduzir a vida como tragédia. Como um sonho de Cassandra.
Ah, a redenção? Tem não, é claro.
Escrito por Katarina Peixoto às 01h26
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Crime e Castigo sem céu

(ou: sobre Caseros – en lá cárcel, de Julio Raffo (Buenos Aires, 2001))
É a realidade, não a imaginação, o que pode surpreender-nos. Alguém já disso isso, certamente, mas não posso citar. A imaginação tem menos com a construção do que é atualmente impossível do que com o que fazemos com nossas possibilidades mais vicárias. A capacidade da violência, essa marca da humanidade, é um buraco negro irredutível às mais ricas criações das mentes e corações. Faz tempo que isso me aperreia, a violência.
Aquelas notícias com as fotos três por quatro de pessoas que nunca parecem pessoas, nem os algozes, nem as vítimas. Talvez essas fotos estejam ali porque alguém que não é monstro nas redações está, sorrateiramente, avisando-nos para mirar melhor as demais fotografias do entorno dos jornais, vá se saber.
Estas palavras soltas são parte de uma experiência cotidiana e espalhada de violência. Estão portanto contaminadas pela explosão midiática e talvez não sejam muito mais do que uma expressão refém dos medos investidos com verbas publicitárias de chocolate. Vá se saber.
Quando uma ditadura, qualquer que seja, decide torturar para governar, a violência é invertidamente mais clara. E as palavras possiveis são tao escassas como o são as informações midiáticas.
Penso muito sobre a dificuldade de escrever decentemente sobre a irredutibilidade da violência. Sobre o que necessariamente escapa e não pode ser traduzido, nunca, da pancada que atravessa a carne, rasga e humilha. As palavras não chegam perto das paredes da derme que são dilaceradas por uma faca, ou por um garfo, ou por um tiro. É claro, Dostoiévski chegou lá e nunca mais o mundo foi o mesmo para quem o leu. Quem nunca sentiu o cheiro úmido e podre de São Petesburgo no verão raskolnikoviano não entendeu Crime e Castigo. E quem não teve vergonha de ser humano diante da descrição do espancamento do cavalo que Raskolnikov faz não pode nunca ter continuado a ler esse livro.
Vamos lá, pergunte quem sou eu para dizer que você não entendeu Crime e Castigo!
Flavio Koutzii, amigo e camarada, emprestou um dos DVD's de sua coleção da cinematografia da ditadura argentina. Como se sabe (podemos saber?), Flavio sentiu na pele, no peito, na alma e sei lá mais onde, do que se faz a violência focada, engenharizada, eficiente e calculada de um regime militar. O filme é sobre a última jaula onde ele foi aprisionado, chamada de Caseros. Uma jaula frente a qual Foucault ficaria surpreso: não tem paranóia panóptica que chegue aos pés do que os funcionários da ditadura argentina construíram. Um lugar projetado para retirar a miragem do céu e a percepção da garganta se mexendo.
Em 2001 esse prédio que transformaria Foucault num projetor de Legos panópticos foi demolido e Julio Raffo fez um documentário com sobreviventes dessa jaula surpreendente. Quase vinte anos depois de libertos, os ex-detentos voltam e falam, algumas vezes dentro das ex-celas (celas???), o que passaram – ou algo do que -, do que perderam – como o companheiro Jorge Toledo, que sucumbiu a uma depressão a ponto de ser assassinado sem trabalho extra de tortura – e do que fazem e são.
Gente como a gente, que sente o cheiro úmido das tabernas sãopetesburguianas em que Raskolnikov não tinha como comer.
O documentário tem seu momento mais dramático no relato feito por Hugo Soriani – hoje gerente do valoroso Página12 – da morte de Jorge Toledo. Um relato, segundo ele, falado pela primeira vez. Ele estava morrendo, Toledo. Morrendo, como diz Graciliano Ramos, de morte. A ditadura e a tortura e o cárcere utererê moderno uber alles venceram sua alma e quebraram sua coluna moral. Ele não levantou para ir ao refeitório e apareceu suicidado logo depois. Soriani conta, discreto e com os olhos inundados e oceanizados, que naquela noite os militares serviram um jantar especial, com direito a carne. Ao som, durante toda a noite, de marchas fúnebres.
Um dos facínoras que estruturou essa prisão que pôs Foucault no seu lugar infantil foi o Ministro Videliano da Justiça, Alberto Rodríguez Varela. Um sujeito que, quando do fazimento do filme, em 2001, ocupava um alto cargo na OAB de lá da Argentina e era consultor de empresas.
Fui caminhar no parque perguntando por que Varela não havia sido morto. E imediatamente esse sentimento foi reprimido por um susto. Estaria, então, ficando velha, cristalizando raivas, enrijecendo juízos que são vinganças e não pesando as coisas num sistema de pesos e medidas razoável ou quando menos maleável?
Na inauguração dessa jaula Varela disse: “Com a inauguração desse cárcere (...) a República Argentina põe em evidência ao mundo a fidelidade a uma tradição jurídica e política que remonta aos tempos do começo de sua vida independente. Que se orientou fundamentalmente pela consolidação dos direitos e garantias individuais. (...) Um cárcere, com suas modernas instalações, constitui uma afirmação tangível de princípios fundamentais de nossa organização política”.
Por que não foi vingado?
Qual é o mesmo o fundamento para esse tipo de gente sobreviver a coisas como Caseros, procriando e caminhando nas ruas impunemente?
Tenho aprendido muito com Spinoza, para quem as coisas da moral são universais ao passo que as da política, não. Irredutivelmente não o são. Mais do que um remédio anti-ideológico, a universalidade dos reclames morais não requer legislação externa alguma, segundo Spinoza. Não requer a bobajada kantiana da máxima que orienta minha ação, tralálá, etc. Mas Kant diz uma coisa forte: o fim do homem é o homem. Mas diabos, de onde vem que se precise de um fim, de uma finalidade? Que fantasia é essa?
Posso aceitar moralmente e mesmo defender não ser equiparada a assassinos e a torturadores e a facínoras em geral como injustos os assassinatos possíveis de Varela e demais videlianos - posso?. Disso se segue o quê, exatamente, quanto a essa certeza esquisita, de que essa gente não merece estar nem ter estado viva, depois do que fizeram ao seu povo e continente? Um argumento recorre à lógica de uma guerra – sim, isso existe. Não é isso o que tenho em mente, penso cá. Outro argumento pode apelar a razões políticas. Posso até escutar e eventualmente levar em conta que se essa gente tivesse sido assassinada a memória desses países estivesse melhor e os defensores dessas barbáries sentissem que não estão no lugar certo. Mas é assim, mesmo?
De onde vem que sejamos habitados por sentimentos vicários ou por certezas vis, mesmo quando sabemos que assim são? Mesmo quando cultivamos o saudável ceticismo quanto a sermos encarnados?
Eu não acredito em perdão na esfera pública. Não penso que perdão e política caminhem juntos. Assim sendo, não há perdão para nazis nem para escravocratas, sobretudo hoje. O tempo conta, certo. Até quando conta e quando é que deixa de contar?
Spinoza abre o capítulo seguinte à apresentação de sua teoria do estado com uma afirmação resignada e lúcida: “As considerações do capítulo anterior sobre o direito universal do soberano e sobre a transferência ao soberano do direito natural do indivíduo estão bastante de acordo com a prática, e é possível regular a prática de modo que ela se aproxime delas a cada vez. Contudo, é impossível que, em todo caso, essas considerações não restem sempre como puramente teóricas. Ninguém, com efeito, jamais poderá, qualquer que tenha sido o abandono que tenha feito a um outro de sua potência e consequentemetne de seu direito, deixar de ser homem. E não haverá jamais um soberano que possa executar tudo o que quer. Em vão ele comandará a um sujeito de ter raiva de seu benfeitor, de amar quem lhe fez mal, de não se ressentir de algumas ofensas de injúrias, não desejar deixar de ter medo e um grande número de coisas parecidas que seguem necessariamente a natureza humana”. TTP, abertura do capítulo XVII.
Granus salis do Século XVII à parte, não parece claro que a falta de resposta à inquietação sentida caminhando no parque faz sentido, sob os olhos de Spinoza e também sob alguma lucidez?
É claro que prescrever o que deve a sociedade fazer ou como uma sociedade deveria ter enfrentando um período pós-ditadura como o foi a da Argentina, com 30mil desaparecidos, é violento. Não pretendo prescrever coisa alguma e por isso abandonei a advocacia possível.
No mais, Woody Allen me ajude, com sua terceira leitura de Crime e Castigo, chamada de Cassandra's Dream. Por ora, aí vai a descrição da “menina mimada do sistema penitenciário argentino”:
1360 celas
140 celas de isolamento
inaugurada em 23 de abril de 1979
Ministro da Justiça do General Videla: Alberto Rodriguez Varela
Edifício: 80km quadrados, duas torres de 22 andares, dois subsolos
Segundo um jornal – não identificado – que aparece no documentário, “Um cárcere feito não para castigar”
Sem janelas e com a mirada para o Rio da Prata interdita.
Demolida somente em 2001.
E a falta de céu para uma raiva. A raiva, vá se saber, que Toledo não teve. É isso?
Escrito por Katarina Peixoto às 00h48
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Por que Oz não existe, tanx!

Fazer o caminho caminhando, como prescreve o sábio e lindo António Machado, exige pelo menos duas disposições difíceis e eventualmente impossíveis. A primeira é a do desprezo pela redenção oferecida fabulosamente pelo mágico de Oz, para resumir; a segunda, talvez mais difícil, é obedecer a si mesmo, como se nossos sis fossem nada mais – nem sempre nada mais, mas quase sempre nada mais – que pesos a conduzir a alma e a discilplinar os passos. Não pesos pesados; pesos, simplesmente, algo corporal, necessariamente corporal e vivo. Deixar-se abandonar em si e obedecer ao que se apresenta, como faz Herzog na direção.
Lembrei da “chegada” de Dorothy, quando entende seu percurso delirante como metáfora e, assim, desperta. Lembrei disso por várias razões, nem todas boas. Como a primeira é muito boa, lá vai a minha gratidão, a alegria sem tamanho de saber que alguém está compreendendo ou entendendo o que se escreve. Não jogo garrafas ao mar. O mar é para outras coisas. Eu escrevo e nisso não vai nenhum projeto além do que aqui sai, nenhuma ambição, nenhuma busca de outra coisa que não a pedra que falta para eu pisar e que precisa aparecer ou ser criada.
Então não é sempre coisa fácil, nem mesmo agradável de ler. Pelo menos foi o que sempre pensei. E talvez nisso residam as acusações de que minha escrita é ruim, perrengue, obscura, metafórica, elíptica, inacessível ou simplesmente idiota – esta última me é a mais simpática adjetivação, vou logo avisando. E se você que está lendo isso tiver enchido com o narcisismo aparente, aqui, vai lá num outro blog mais objetivo, que a coisa aqui está pelo menos bastante subjetiva.
Sem mais delongas, este é um post de agradecimento. Uma tentativa de dizer que obrigada não é estar obrigada, mas comprometida e experimentando esse milagre que é saber, numa acepção muito sutil e frágil, que “aquele que escreve sua história habita a terra dessas palavras”, como disse o lindo, lindo e bravo Mahmoud Darwich. Isto é, que sob as pedras há terra e que o caminho não é fantasia por estar em palavras. Saber-se compreendida é árvore, não parede, para inverter, com zil perdões pelo atrevimento absurdo, o poema de Manoel de Barros, o maior poeta brasileiro depois de João Cabral.
Fosse eu Alice talvez dissesse que algum bicho mágico estava me acompanhando sem que eu visse. Fosse Dorothy, o bicho estaria ali e eu nem nem, mirando as infinitas e incontornáveis impossibilidades de tradução que experimentamos, nem sempre justamente ou nem sempre não-perversamente, na vida.
Idelber Avelar é pessoa rara e intelectual ainda mais raro. Escreve com a alma cultivada e com o compromisso inabalado, tocado apenas para esgarçar-se, se for o caso. Tem um monte de coisas que poderia falar, mas aí iria diminuir as coisas. Essa coisa surpreendente que é saber-se compreendida e lida, mesmo que não haja garrafa alguma, nem palavras ao mar. Como obediência, apenas, como obediência. Agradecendo, caminhando, lendo mais e sentindo a terra atravessar as pedras sobre as quais estas palavras são pisadas. Um abração, meu amigo. Nenhum continente nos afasta.
Escrito por Katarina Peixoto às 00h37
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