O dia em que descobri que sou suda

Tinha ido a Espanha a convite da Carta Maior, para escrever. Dissertação terminada, aquele alívio que não se frui, estranhamente. O Fórum Social Mediterrâneo iria acontecer em Barcelona. Poderia chegar uma semana antes e visitar uma amiga que estava terminando o doutorado na Universidade de Sevilla, Laura Beck Varela. Em Sevilla, passeamos e curtimos a matança da saudade num circuito de quase 10 horas ininterruptas. Andamos pelas ruas e arredores que me pareciam uma contrafactual psicogeográfica de um certo Recife. Aquela certeza de que estava, enfim, percebendo o que João Cabral tinha transformado em poesia. Laurinha tinha feito a qualificação e se saído excelente, claro e mais uma vez; a isso também brindamos.
Tudo tão intenso que, tirando os calos nos pés, era como se não tivesse corpo. Naqueles dias a vida usava o corpo, exaurindo todos os relógios, etapas de metabolismo, músculos, estoque de risadas, fofocas, surpresas e descobertas. Falar da abundância da Andaluzia, depois de alguns dias lá, é meio ridículo. Eu simplesmente só posso falar da contaminação e da sorte grande de ter comprado um livro sobre a arquitetura do islã, uma fantástica arquitetura religiosa. Livro de Titus Burckhardt era a companhia, depois da partida de Laurinha, na cidade psicogeografante do corpo.
Olhando para trás, isso foi logo ali, em junho de 2005. Essa expressão de psicogeografia corporal, porém, vale o quanto pesa. E o seu peso foi surpreendente. Descobri, numa manhã em que perdera o horário do desajuno, na mesa de uma padaria do bairro Santa Cruz, que era suda. Isso foi antes de comprar o livro sobre arquitetura. Estava lendo, inocentemente, o El País, tomando um café passado há mil anos. E peguei um texto de Sergio Ramírez sobre o que estava se passando na Bolívia, onde emergia uma grande novidade chamada Evo Morales como candidato a presidente do país. Um índio cocalero. Tenho de confessar a babaquice que cultivava, inclusive negando, que aparece num ar blaisé, supostamente bem informado e, claro, “um tanto cansado” disso que alguém disse que era a América Latina e do Sul. Para piorar minha imagem que, sim, quanto a isso era de pura idiotia evidente, abri o texto de Sergio Ramírez sobre a Bolívia e a revanche da elite da Santa Cruz boliviana contra o levante indígena no país, com um ar cretinamente altivo, "supostamente" suda. Na minha ignorância atroz, pensei para mim: “vamos ver o que esses europeus dizem da Bolívia e de 'nós'”. Isso aí: não conhecia Sergio Ramírez e só fiquei sabendo que tinha sido vice de Ortega, em 1984, ao fim do texto.
Um sandinista me contou, sem o saber, que eu sou suda, lá na outra Santa Cruz.
E que texto extraordinário. Era um apanhado do ressentimento e da ira da elite crioula boliviana contra o índio Evo. Uma análise sóbria e com lado, radical e de clareza meio impressionante, pelo menos para aquela alfabetizada no preconceito que descobrira novas sílabas e conjugações, o café já frio, abandonado. Ramírez falou da tentativa de “emancipação” do Departamento de Santa Cruz como uma variante possível, naquelas alturas, da ira e do ódio das elites crioulas contra o povo. Uma comparação com nossa herança portuguesa não pode ignorar esse ódio, mas o catolicismo espanhol teve peculiaridades caras aos andinos e aos mexicanos. A igreja católica também desempenhou funções de banco na América espanhola. Além de formar a elite crioula e de salvar os índios da maldição do paganismo, com generosidade e tolerância, emprestavam e financiavam o desenvolvimento das colônias. Inquisição financista, talvez se possa dizer, retrospectiva e nem por isso arbitrariamente.
Crueldade refinada e impregnante como a religião monoteísta, penso cá; será? Mas quero dizer é que o texto de Ramírez me devolveu ao meu corpo alí, naquela padaria do bairro de Santa Cruz, em Sevilla, naquele junho de 2005. Sou suda, pensei; é assim mesmo como diz Ramírez, ao denunciar o racismo, a ira e o vergonhoso não-reconhecimento dessa elite perante os índios e também negros. Isso que a América espanhola sempre fez sem negar, pelo menos diante de nossa cordialidade malvada, tipicamente brasileira. E contra fatos, aqueles fatos ali percebidos, só há ideologia, pensei. A viagem da contrafactualidade de João Cabral, caminhando e sendo caminhada por Sevilla, psicogeografia pregnante de encantamento e resignação, assim, ao mesmo tempo, foi substituída por algo mais definido, mais corporal. Suda.
Pouco mais de um ano depois, um amigo me apresentou a excelente coletânea escrita por historiadores, a maioria ingleses, “História da América Latina”. A historiografia inglesa se debruçou seriamente sobre a América do Sul e fez um trabalho muito mais do que decente. Mais um tabefe anti-classe média educada para desprezar a sudamérica: os historiadores ingleses não têm problema algum em situar o papel financista da ICAR e o vínculo dessa atividade bancária com a Santa Inquisição espanhola. Não têm, tampouco, “pudor” em tratar elites crioulas como aquilo que elas são, desde há muito: predadores mesquinhos, sacoleiros estéticos, “formigas” morais, pedras de generosidade, poeira de fé.
Descobri que era suda e, depois, o quanto havia sido bocó e educada para ser bocó. E que ser bocó é, desde sempre, acreditar como obediência, confiar no que não tem fiança, aqui. E que levar a história a sério não “serve” apenas como esclarecimento a respeito de uma conjuntura, mas esclarece quanto a si mesmo. Quanto ao que se é. E que se não for assim não é história.
Suda.
Tudo isso lembrei hoje, neste fim deste abril de 2008. Lembrei do dia em que descobri que era suda e do sentido corporal, determinado, impregnado, desse adjetivo. Porque no próximo dia 4 de maio a elite crioula, retratada pelos historiadores ingleses nos mesmos moldes estruturantes desde o século XVI, estará fazendo um plebiscito para se “emancipar” dos índios bolivianos. Para se “libertarem” de Evo Morales. Para se “livrarem” da sudamérica, uma vez mais, como sempre. Sempre? Eles querem separar a Santa Cruz da Bolívia, agora que a Bolívia deixou de ser seu quintal de mucamas e serviçais. Não conseguirão, quero crer.
Como sou suda, vim aqui. Devolver o que eu sou, retornar o desprezo e dizer da amorosidade que aprendi a obedecer. Suda. Eu sou suda e estou com Evo.

Escrito por Katarina Peixoto às 17h44
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