O obstinado mal alheio

Conheço uma mulher que disse jamais ter gozado como quando sofreu um estupro, anos atrás. Uma amiga, violentada durante mais de dois anos por um tio, quando tinha de dez a doze anos, disse-me, aos prantos, que era cúmplice daquilo.

Há uma perspectiva psicanalítica que busca esclarecer essas coisas dissociando o gozo do princípio do prazer, à medida em que este é vinculado à realidade e, aquele, à fantasia. O universo da fantasia, diz-se, é amoral. Logo, a investigação sobre as motivações do gozo em situação de violência ou sofrimento reside em “localizar” de onde vem o gozo do sujeito x. Aí, pode-se saber algo a respeito da perversidade e das perversões que animam as coberturas e silenciuras policiais.

Como não sou psica, não prossigo com isso. Não ouso investigar de onde vem que gostemos ou que façamos ou que simplesmente gozemos com o mal. Fato é que essas coisas existem, estão aí e aqui.

Ontem, durante a heróica vitória do Internacional, lá no Beira-Rio, essa constatação veio corroborada pelo que um amigo disse: “estão fazendo isso desde o tempo dos gladiadores. Não mudou nada.” As conversas filosóficas originadas modernamente a respeito da natureza humana importam em nada a este texto. Se é certo que árvores não estupram e que leões não mentem, também é fato que do nosso mal não se segue, necessariamente, uma tese possível quanto a nossa natureza. Natureza é da ordem de coisas que não suporta nem pode suportar bem e mal.

As gritarias, a ira, o descarrego, literalmente, de toda angústia ou vazio, chegavam a ensurdecer. Neófita de estádio, fui sem radinho; o resultado é ter de passar o jogo com os ouvidos tapados. Pois chegou a doer, de tanto grito. Sim, a experiência do jogo, do 5 a 1 cavados, lutados, suados e harmonizados, foi extraordinária. Mas a turma que não se julga nunca má estava lá, assombrando - gozando.

É uma turma que, tivesse gozado num estupro, negaria, oops, denegaria. E que jamais confessaria alguma cumplicidade a uma amiga, a respeito de um abuso sofrido.

A ânsia espetacular e mercantil vive assassinando crianças e estimulando a barbárie. Em lugar de jogar câmeras e jornalistas no chão e enviá-los aos seus infernos devidos, seja verbal, seja imageticamente, a turma assombrada os obedece. Sempre tem o patife de ocasião a se pôr enlutado, a descarregar a própria covardia perante a criança alheia. A criança alheia sempre é mais bonita, inocente e imaculada que as nossas. Essas nossas crianças!

A criança alheia nunca habita a casa desses zumbis do espetáculo triunfante. Elas apanham, são humilhadas, aparecem em comerciais de banco, vendem cartão de crédito, são violadas, ficam com fome, sofrem de abandono, de ciúme alheio, são surradas. A atual CPI da prostituição infantil não levantou uma medida sequer, nem por qualquer parlamentar de esquerda, visando à interdição da presença de crianças em comerciais. Alguém me explique por que vender cartão de crédito na tevê é menos pornográfico que espancar uma criança ou que torturá-la jogando-a na frente de tevês, assistindo a como se deve encher a barriga de balas, plástico e vazio.

Tudo isso é óbvio, como se sabe.

Pessoas sérias sabem que infância é invenção. Que perversidade como prerrogativa de adulto também é invenção e, neste caso, falácia. Há crianças perversas e há velhos perversos. Disso não se segue naturalização nem inimputabilidade, logicamente. Disso se segue que a inocência não é uma noção moralmente privilegiada. E ninguém que faz e cria, “cuida” e diz amar crianças, velhos e adultos tem o direito de se dizer, em princípio, inocente.

No meio de um espancamento corriqueiro pode-se matar e morrer, numa espécie diária, meio Jornal Nacional, de dolo eventual cotidiano. Numa briga violenta dentro de casa alguém pode ficar lesado no corpo e indefinidamente lesado na alma. Morrer, alguém já deve ter dito, diz-se e faz-se de muitas maneiras. E a referência é uma só: a perda de si mesmo na miséria; da televisão, dos jabás de rádio, da música pornográfica que assola o imaginário popular brasileiro especialmente, dos jornais e revistas triunfantes, da mentira, do desalinho ético, estético, político, econômico...etc etc.... Tem de padre pagodeiro a cineasta financiado pela ditadura militar a condenar e a acolher a tal da inocência eventual. Comentaristas de ocasião que nunca sofrem perante a própria peçonhice. Místicos que condenam o sexo para mascarar estupros, corporais e nem tanto.

Aposto um abraço bem apertado e um muchocho com quem duvida que as senhôras que fecharam 105 escolas e pelo menos um coral infantil estaduais estão sinceramente comovidas com as crianças alheias, dessas que estão “lá”. Aposto um brigadeiro morninho com que duvida que as crianças sem comida na Faixa de Gaza, agora, e as crianças ali da Vila Cruzeiro e as crianças e cadáveres nem tão adiados assim de Darfur, aquelas criancinhas lindas daquele edifício arborizado em Petrópolis estão a comover esse tipo de gente boa, precisamente por sua “aleatoriedade”. Alheiatoriedade é mais preciso.

Importa é quem está matando. E como. E por quê.

Isso não se responde por especialista, nem pelos melhores servidores públicos possíveis, nem por comentaristas de aluguel, menos ainda por quem acredita no que enunciam os inúmeros lixos midiáticos. Isso se responde por quem leva as crianças, os velhos, as árvores e as palavras a sério.

   



Escrito por Katarina Peixoto às 21h30
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