Lá no sertão

Para vovó Sula, in memoriam, e para todos os que também estão perto
A imagem do sertão, depois que se cultiva o hábito de caminhar sob árvores – sobretudo mirando a possibilidade do mundo invertido, realmente, no qual o céu é chão -, é estranha. O sertão é deslumbrante. Não é a bocozisse nacionalista anos cinquenta quem fala. O sertão é uma imensidão de chão rachado, de árvores eufóricas diante de meio dia de chuvinha – solo fértil, muito fértil -, de calor intraduzível, de lunaridade. Deve ser isso, a lua, aquele deserto de árvores que poderiam ter sido ou que foram e que, quem sabe, talvez venham super animadas, a seguir. Agora (neste agora), estão muito secas, apesar da enchente (nesse agora), que assola o sertão. Deslumbrância, alguém já deve ter dito, só conhece excessos. E incompreensão. Lembro agora da cena: íamos para Fortaleza para, de lá, chegarmos em Jericoacoara. Atravessamos o sertão cearense e parte do do RN. Fora os postos de gasolina raros, tinham uns caras, a cada 30/40 quilômetros, pendurando tatus para vender aos viajantes. Tatus ameaçados de extinção. Minha amiga Van se indignou: os tatus, esses especialmente, estão ameaçados de extinção. Também no sertão tem muito lixo plástico ao redor das cidades. Tem lixão, sem catador nem reciclagem.
Lá no sertão, lembrei manhazinha da última terça-feira, tem também muita barbárie. Ao contrário do lirismo classe média do sudeste brasileiro, o sertão não é lugar de gente linda, mas de gente rachada, metafórica e não metaforicamente falando. O problema não é buraco na camada de ozônio; o problema é a relação, a natureza da relação, com a morte, a ausência e a perda. A sequidão de Graciliano, o seu compromisso imperioso diante da verdade, é a coisa mais próxima que há da descrição do que se trata o sertão. Esgarça a língua, estica a forma e não desata, só retesa. Porque retesada é a vida, ali, sem que o limite seja parido pela subjetividade. Faz-se filho porque filho é para saber que se está vivo. Assim, viu? É assim.
Sou bisneta de uma índia do sertão pernambucano, Sulina o seu nome, que contou e ensinou coisas, a maioria lindas, sobre o sertão. Lá é assim e o povo sorri incompreensivelmente. Vovó Sula me ensinou a subir em árvores; o detalhe é que ela já estava com 86 anos e nós, eu e meu irmão e primos, com, no máximo, 7. E ela, lá em cima, a nos xingar. A gente “não dava nem para subir em árvore e pegar fruta”. Lá no sertão tem de se saber algumas coisas, a gente aprendeu – e, como naquela época a alegria vinha de graça, falando sem dinheiro na cabeça, não pensávamos em aprender outra coisa.
Lá no sertão oligarquias mandam, mesmo. Com e sem voto, as oligarquias existem e matam adoidadamente. Para muito além do refinamento descrito nas teorias da cordialidade e do patrimonialismo – ou aquém? -, lá o tempo que passou resiste como eterna promessa do futuro. Minha falta de respeito em relação ao papel de Ariano, alô, querido Idelber, tem com isso. Resiste como fora do tempo; este que, bem dizer, lhe é resistente.
Diabos, foi para isso que vim aqui, hoje, neste fim de dia em que descobri, desolada, a safadeza que a Apple fez com meu ipodzinho shuffle? Putz, e pensar que milhões de leitores, a maioria altamente consternada com o destino de minhas palavras e com meu indubitável poder, enviaram trilhares de mensagens solicitando meu retorno! Para isso?!? Camõn, Katarina! Eu volto, desde lá no sertão.
Lá no sertão é terça-feira manhazinha
Então, lá no sertão tem pistoleiro, oligarquia a saquear o estado, a bater, torturar e humilhar quem se rebela e tem também, claro, gente para avacalhar com o serviço público, que ninguém é de ferro. Orgias com dinheiro costumam não caminhar juntas com trabalho, republicanismo e respeito. Lá no sertão nem escravidão teve, pode-se dizer sem altivez, porque não havia nem houve monocultura para exportação.
O cultivo, lá no sertão, é da rachadura, do cacto e da encarnação da terra. A referência à naturalização das coisas, se alguém está se ocupando de ler isto, é uma só e não é pejorativamente retórica. Há algo (alguém já disse isso) de não-intimista nem biográfico nas metáforas.
Terça-feira manhazinha, tipo seis e meia, sete horas, o sertão retornou, como açoite.
Parte da naturalização de que estou tentando falar reside naquela barbárie que Brecht viu – mais uma vez -, na Ópera dos Três Vinténs. A barbárie na alma e na sua extensão, dentre os injustiçados pela barbárie. A comprovação teatral – sem o socratismo estético denunciado com razão por Nietzsche – e histórica de que violência pare violência, de que sofrimento produz sofrimento. Pois bem, leitores amigos, inimigos e fãs de toda ordem: lá no sertão a barbárie se consubstanciou em acontecimento. Sem metáfora, sem retórica; sem entusiasmo e sem qualquer alegria.

Escrito por Katarina Peixoto às 22h49
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Lá no sertão II
Ao lado, Alegrete city.
Já na segunda à tarde havia a notícia. A amiga liga, voz em pânico, dizendo que testemunhara uma execução, numa vila para onde tinha ido fazer uma matéria numa Ong. A matéria, eu digo, era uma das variantes utilizadas para disfarçar o fato de que a secretária fechou 105 escolas estaduais, no estado. O maior jornal daqui trata esse fato com notícias positivas sobre uma ou duas escolas e sonega os prejuízos para alunos, familiares, servidores públicos de 105 escolas. A realidade, como a morte, espreitou o espetáculo e, desta vez, num trágico milagre narrativo, atropelou a mentira e esmagou a esperança dos bocós que acreditam na linha editorial de certas coisas do monopólio comunicacional. Dizer ao telefone que presenciara uma execução não informou o que a capa do jornal mostrou, dia seguinte.
O dia em que, depois de mais de uma hora de caminhada no parque, com o cabelo oleoso e o corpo empoeirado, faltou água. Acordar com o cabelo ensebado e não ter água. E ficar sabendo que assim iam muitos, há dias. Que um conserto deu errado, sem mais explicações, e que 16 bairros ficaram se água. Sem água, igual a lá no sertão, onde a demanda por saneamento parece lorota de ficção científica. Outra coisa que açoita, há meses, é o cheiro de cocô, nas calçadas e no parque. Há quem, conta Brecht, diga que isso não passa de frescura: mas caminhar sob o cheiro de cocô ou cola é meio desagradável e, bem, lá no sertão não tem isso.
Então eu volto. Estava lá na capa, a foto da execução. Mais do que o risco de morte da amiga, que causa aquele desabrigo estomacal, está a surra da realidade. O desabrigo que a realidade impõe, sob o mundo invertido. A morte de um homem, o tiro no outro e um jovem armado, em nossa direção.Lá no sertão se tornou a frase invasora. Sem água, sem lei, sem respeito.
Ôpa, está faltando a oligarquia, aquela, não-suscetível ao refinamento teórico. Na capa em que a execução é flagrada, testemunhada, captada, nenhuma linha que apontasse a palavra responsabilização. O secretário de segurança, assim como a senhora da educação (sic?), perseveram embolhados pelo monopólio comunicacional. Faz tempo, meus leitores sabem, que não me ocupo em denunciar a desinformação triunfante. Há gente muito melhor e mais talentosa que eu a fazê-lo. Além disso, a luta pelo poder é mesmo uma categoria mais importante ou um modo mais adequado sob o qual se pode observar e mesmo participar das coisas da vida. A desresponsabilização, contudo, parece atravessar a realidade, rachando as pessoas, os rios, as matas e as pessoas, como lá no sertão.
Está acontecendo uma investigação no parlamento estadual gaúcho, sobre uma fraude inédita e histórica no estado. Uma fraude investigada pela Polícia Federal, que envolve uma Fundação de Universidade Federal e a prestação de um importante serviço público. Essa fraude não convive com as denúncias midiáticas de responsabilização e sequer habitam um portal de internet acima do Mampituba. Uma gente que disputa o poder para saquear o estado, não para prestar serviços ou para assegurar direitos e promover o desenvolvimento. Saquear, promover-se, espetacularizar, sujar ou deixar que se suje, mentir; até que uma execução cale o fígado e desorganize o estômago dos que ainda o têm.
E isso não é estranho. Estranho, mesmo, é acordar e pensar que lá no sertão é diferente, assim, sob o engano a respeito de onde se está.

Escrito por Katarina Peixoto às 22h46
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