Mas nós estamos no mundo

A Palestina andou descansando, depois dos mais recentes bombardeios, e por isso não tem dito muito. Há muito trabalho sendo feito nos territórios ocupados e em breve espero sejam os frutos apresentados depois de uma colheita proveitosa. Então, é assim: não peço desculpas, nem pela ausência recente, nem pela pancada que darei a seguir. Só espero conseguir deixar claro que não se trata de um lamento e que os vigilantes do bom humor triunfante que vive mergulhado nas profundezas dos pires pode ficar tranqüilo. Há derrotas que nos ensinam muito mais do que triunfos comprados.
A OTAN, vulgata que a Unidade na Luta, corrente interna do Partido dos Trabalhadores, recebeu de petistas porto-alegrenses, derrubou a última trincheira que restava. Fontes que não quiseram se identificar relataram a celebração de José Dirceu, Valter Pomar e Jilmar Tatto, ao som de Amigos para Sempre, num restaurante que servisse o espumante à altura do que não se contabiliza. Esses militantes sociais da base do partido derrubaram os caciques de Porto Alegre. Os caciques, precisamente, que não fizeram negócio nem com Marcos Valério nem com o interesse público nem com o patrimônio da esquerda brasileira que jamais se constituiu negociando a confiança.
Desnecessário seria dizer que há coisas que não se vendem, agora que a OTAN tomou conta dessa última trincheira. Pela brutalidade da coisa, o desnecessário emerge como urgência: os caciques daqui não negociam com a base militante da hípica de São Paulo, sobretudo para tirar onda de vítima da direita.
Em tempo: se alguém da tal da articulação estiver lendo isto aqui e quiser comentar algo a respeito de meu eventual sectarismo recolha-se ao seu tamanho e retorne ao lado de lá do balcão da loja recém comprada. Seu lugar não é aqui.
Como se sabe, não sou jornalista nem pedagoga. Costumo respeitar com proficiência a disposição paranóica registrada nos Comentários a Sociedade do Espetáculo, segundo a qual é preciso resguardar-se da pretensão de ensinar algo a alguém. De fato, aprender guarda um certo sentido intransitivo sobre o qual corro o risco de ainda mais incompreensão se continuar escrevendo sobre. Aprender se aprende, aprender se aprende aprendendo, assim, como algo que ultrapassa e contudo depende dos confins da particularidade. Professor é parede; aprendizado é árvore. Escolha sua construção ou sua vida, a esquizofrenia megalômana e tirânica dos que pretendem ensinar e a disposição orgânica e viva dos que pretendem viver e espalhar-se como coisa viva, aprendendo, neste mundo.
Essas notas confusas servem para dois protocolos tranqüilos e certeiros.
Há pelo menos duas coisas graves a serem pensadas. A primeira é a medida da responsabilidade pela fantasia de que a massificação do Estado, transformando-o num grande centro de serviço social, é do que se trata a democratização e a civilidade almejada a título de justiça social e futuro. A segunda, é a medida em que a relação entre política pública estatal e lumpezinato contemporâneo pode ser – se é que pode – estabelecida desde o abismo.
O abismo não é só retratado nas filas de kombis carregando pessoas que não sabem em quem vão votar. Não é só retratado no deprimente espetáculo de uma juventude que grita e celebra o pensamento mágico - ??? – e a irracionalidade como virtudes da política e das eleições. Não é apenas o sorriso do tesoureiro do PT e de uma senhora, que pegou o microfone para condenar Miguel em função de um quase acidente cardíaco que ele sofrera. Não é a louvação da destruição da história. O abismo é a esquizofrenia aparente que vem assolando a possibilidade de se levar a sério tal coisa como um partido político de esquerda e republicano.
Uma das jogadas demagógicas da candidata eleita ontem é ter defendido a ocupação de prédios públicos vazios do centro da cidade pelos sem-teto. Tipo de coisa que é dita depois de ser dito que o OP não é um legado e é ineficiente e não deve ser o paradigma de investimento público-estatal.
De um lado estão Olívio, Tarso, Raul, Flavio Koutzii, Dilma Rousseff, Guilherme Cassel e Miguel Rossetto. Do outro, Jilmar Tatto, José Dirceu, Paulo Ferreira, Júlio Quadros e Maria do Rosário. O espetáculo triunfante celebra a derrota da última trincheira a reivindicar um republicanismo de esquerda, para o país. Um dos desavisados da história e da vida, apoiador entusiástico da candidata eleita, veio certa feita bater boca com um dos nossos. Estava revoltado, isso mesmo, com a vindicação do republicanismo democrático e historicamente fincado, por nós. Gritou que o que estava em jogo, “como se sabe”, para “a esquerda”, era a ditadura do proletariado! Isso mesmo, galera: abismo. A Polícia Federal e seus malditos inquéritos anti-proletariado, humpf!
Estou de volta, aprendendo a alegria no trabalho, no movimento do corpo, na descoberta do espaço e de alguns seres humanos.
Spinoza rules. O seu inegociado cultivo pela tolerância nos ajude a enfrentar o misticismo dos que pretendem ensinar e relatar a mentira e a barbárie como salvação.
Idelber, tu é uma baita criatura e sinto um privilégio imenso de termos estado juntos, sabendo que estamos juntos, pelo melhor do mundo. Pelo espírito, a alegria e o compromisso. Se eu agradecer vou diminuir o tamanho da alegria. Ainda por cima tem filhos lindos e polidos, tão bem educados como quem tem aprumo ético procria. Não nos afastemos.
Clarissa e Eduardo, se agradecer também diminuo as coisas. Vocês foram a única coisa boa desse domingo bizarro. Agradecer pela presença, o amparo e as cervejas, além das risadas, é diminuir. Quando a República calou e o bar fechou, a gente tava lá. Rindo! Vocês são lindos.
Raul, Flavio, Miguel, Paulo, Fernando, Silvana, Luiz Filipe, Guilherme, Jaca, Aline, Beta, Catherine, Fabiano, Mônica, Tarso, Sofia, Marcelo e meu amor: “A verdadeira vida está ausente; mas nós estamos no mundo!”. Bravíssimo!

Escrito por Katarina Peixoto às 12h29
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