Andei escrevendo sobre Darwin para a Carta Maior, na cobertura da I Conferência Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário, em Olinda.
Darwin deve ser lido, e essa trivialidade é mais profunda do que pode parecer.
O Diário de Viagem do Beagle (que a editora da UFPR andou publicando) que ele escreveu, em fins do século XIX, é uma das coisas mais ricas e precisas escritas sobre o nosso país, a nossa elite e geografia moral.
Também tive a grata surpresa de acompanhar um painel, no qual o professor Paul Singer teceu uma reflexão importante sobre o tempo e a agricultura.
Então, estou em Olinda. Depois volto. O registro de surpreendentes respostas a coisas ininteligíveis realmente causa uma percepção de que a devolução de afetos e de coisas imaginadas em geral e em particular é muito do que se faz a comunicação. Vá se entender. Em Olinda. Almoço: salada de abacate com camarão – divina – e camarões com molho de rum e arroz negro, ao molho xútnêi, hoho. Maison Bom Fim é muito bom para ver e curtir amigos e boas risadas. Ainda que rapidamente.
I Conferência Nacional de Desenvolvimento Rural Solidário e Sustentável. O tema da conferência é: por um Brasil rural com gente. Gente é muita e vária, por aqui. Falando sério: milhares de produtores rurais, quilombolas, índios, coisa mui rica de tão linda e importante. É gente que produz para e por gente, por e para gente: eles são responsáveis por 70% do que comemos. Gente contra commoditie. Eu fico com os primeiros, porque são eles que estão aqui, e aí. E commoditie, além do lero lero da finança, não existe.
Faz sol em Porto Alegre. A previsão do tempo indica diminuição da temperatura com a limpeza do céu. Agora, neste momento, o vento empurra as malévolas nuvens e apresenta um sol com a possibilidade de secura. A secura inenarrável do sol sob o frio. Um boletim otimista para quem se recolhe sob a chuva. E pensar que tem gente que recepciona a gelidão úmida e resiste, sem dor, aos dias. É furiosamente difícil enfrentar esse tipo de coisa quando seu expediente é interno. Mesmo não sendo só interno, ele o é, em muito ou no suficiente para não sair de casa. E é por isso, também, que eu preciso de um cachorro. De um cachorro louco, de preferência que vai tumultuar, depender de mim, mas tão completamente que não poderei reclamar, depois. Sonho com a chegada e com a trabalhareira do cachorro, sobretudo agora, em que um certo tempo de espera revelou, antes de qualquer coisa, a constatação de que paranóia não chega aos pés da forma constituída e indubitável do desprezo.
Não queira entender. Não dá.
Então, a previsão do tempo precisa ser melhor apresentada.
Começa o inverno, hoje. Fontes que não quiseram se identificar dão conta de que no inverno as pedras descem mais rapidamente ao fundo, como obedecendo às leis da decantação. Sem poeira, sem alergia. Não fosse o excesso de água, não fosse o excesso de chuva, não fosse o silêncio esquisito de toda decantação, aquele silêncio que demora do lado de cá e é acelerado do lado de lá, seria sempre ótimo. Ótimo como o céu recém aberto e o sol dizendo que está aí e as nuvens, nem sempre.
Eu busco, em vão, o olhar de Coetzee sobre as coisas e o sobre o tempo. Se é em vão, que pelo menos console a respeito da pertinência e de que pertinência é o caso a vida.
Fui na praça. Estava cheia mas nem tanto. Acho que nunca tinha visto tanta polícia reunida. De motos novas, bem vestidos. Aquela confusão geral a respeito de quem é criminoso, que a polícia tem o vício de cometer, gerar e ser vítima de. E o jornalão de hoje, que escolheu inclusive musas de CPI. Inverno.
Só quem não entende coisa alguma pode dizer que o inverno é escuro, quando o que ele é, é nítido.
Em tempo, quem não viu The Savages – A família Savage – que acaba de sair em DVD, com os dispensantes de comentário Laura Linney e Philip Seymor Hoffman, vá pegar. E não gaste nem um real com a chinelagem do Shyamalan: é a maior conjunção de erros e falcatruas que se pode cometer no cinema. Nas raias do surrealismo. Um filme em que o diálogo central é: “antes que o mundo acabe, eu preciso dizer que te traí com um tiramissu”. Juro que a intenção disso não é bem sucedida como comédia. E tem uma onda de suicídio em massa que se atribui à natureza. Hitchcock correria para debaixo da cama, apavorado. Não é a natureza que não explica, visto que explicar é propriedade do pensamento; somos nós que estamos em dívida de sentido, à medida que nos intoxicamos com o delírio da explicação absoluta, vejam só, exatamente do que não é natural.
E é por isso que o corpo é importante. E que ele agradece esse afastamento das nuvens. Cachorro, vencer cochonilhas, descobrir Händel depois de adulta, refazendo os arranjos e peças na cabeça, na memória. Aceitando as músicas que, enfim, podem ser escutadas sem aquela carga de outros, para quem a música jamais foi respeitada, enquanto tal.
Não queira entender. Este boletim do tempo encerra aqui. Com o registro de que boas previsões do tempo não prevêem, mas rememorizam e que, portanto, só deveriam ser feitas quatro vezes ao ano em zonas subtropicais. O resto, o corpo prova e assim deve ser. Como o fazem os cachorros e os gatos.
A única coisa boa diante do quadro de desgoverno do Rio Grande do Sul, a propósito, é a experiência ofertada da insignificância dos párias do poder delirantemente constituído. Esse desprezo, sim, é excelente e dá gosto de vida ao pôr os pés na calçada, para onde me dirijo, já que suas pedras estão melhor estruturadas, lá no fundo.
ps: a foto acima, retirada de blog português, é inspirada no magnífico O Desconforto da Riqueza, de Simon Schama. A inspiração é minha escolha, bem entendido. E se você não leu, ainda, ou não está lendo, não queira entender essa interpretação. Hasta.
O dia inteiro de cama, espécie de colapso físico, provavelmente algum
micróbio. Logo uma pessoa tão hipcondríaca! Que coisa.
São quase meia-noite e Barack Obama acaba de ser confirmado o candidato
democrata à sucessão de um dos mais sombrios e nefastos anos da história
recente, os anos George W. Bush, Condi, Wolfowitz, Rumsfeld, Negroponte e mais
uma série quase inacreditável de genocidas militantes.
Todo mundo sabe que há algo de musical no salto dos golfinhos e na passagem
do som pelas dobras dos lábios, quando se grita, quando se sorri, quando se
fala. Uma acepção de experiência que não é organizada, mas que organiza o que
quer que se venha a fazer, ou que venha a acontecer.
Como este blog não é informativo, nem pedagógico, e como estou enferma, paro
aqui. Tô sem força para escrever mais, ainda que quisesse.
Porque hoje, nesta noite, os profetas do apocalipse e das variantes
deterministas rastaquera estão mudos. Devem estar. Porque os charlatães
internacionais e os trapaceiros de balcão – engordurado – de falsas idéias e
palavras de aluguel estão sem audiência.
Não precisa de ilusão nem de ingenuidade para dar-se conta de que há tal
coisa como história, e de que há Política, a despeito dos usurpadores que se
dedicam a predar ou a vigiar e punir aqueles que ousam questionar suas
falcatruas. É verdade que não se pode muito, sempre. É verdade que o atual
estado das artes e anti-artes neste mundo e quadra história andam de par com uma
experiência de impotência e desagregação. E que, assim, a expressão yes we can
soa bobinha. Quer dizer, soava.
Floratil, água de côco, pão com pão, sopinha, abraço, amor, confiança.
É melhor para os palestinos e para os californianos. É melhor para os sudas
como eu e para os sudaneses. Só isso e tudo isso. Porque quando a possibilidade
soa como um átimo, esse átimo merece eternidade.
Por que Woody Allen fez mais essa versão de Crime e Castigo, dois anos depois da última (Match Point, 2006)? E qual é o sentido de dividir Raskolnikov em dois, esquizofrenizando às últimas conseqüências o embate entre legislação moral e legislação, se assim se pode dizer, jurídica? O filme é uma maravilha e é terrível, aliás mais terrível que Match Point, em que as similitudes frente à obra de Dostoievski parecem mais evidentes. Allen, desta feita, estabelece uma cumplicidade entre nós e os criminosos (o duplo raskolnikov, vivido pelos excelentes Ewan McGregor e Colin Farrell) que em nada se assemelha ao papel do arrivista vivido por Jonathan Rhys Myers, na segunda versão, também filmada na Inglaterra. Não é que nós saibamos o que eles vão fazer e o que eles são; em Cassandra's Dream nós estamos ali passo a passo do próprio ato, da deliberação atormentada e da decisão atabalhoada, do passo antes do tiro, do desmantelo da culpa, depois.
É uma tragédia? Difícil ter certeza, pelo menos diante da estratégia de esquizofrenização de Raskolnikov. Ao sacar um duplo pode-se ainda acusar uma inconsciência frente ao destino ou ao que determina os sujeitos? Pode-se dizer que os irmãos e o tio mandante não sabiam o que Paulo de Tarso já disse há séculos? Quem é mesmo que não sabe que ao crime segue-se castigo e culpa?
Então fica complicado sustentar que se trata de uma tragédia. Ao mesmo tempo, é evidente que um mesmo diretor realizar três variantes do mesmo texto literário num espaço de menos de vinte anos (Crimes e Pecados é de 1989, Match Point, 2006 e agora este, de 2008), quando o diretor é Woody Allen, dá a impressão de que ele está acusando algo. Isso mesmo, acusando. É claro que Dostoievski e Woody Allen dificilmente darão coisa ruim e que mil filmes não esgotam uma grande obra. Mas o que quer dizer isso? Saí do cinema achando que Allen estava como que assumindo uma função pastoral, como fosse um rabino a realizar lectures para o seu pessoal, acusando, denunciando e convocando-nos a sermos menos cretinos e cegos, menos medrosos e covardes, menos mentirosos e lacaios.
Ewan McGregor e Colin Farrell (que está excelente, comprovando a tese de que o diretor faz o ator) são, respectivamente, a face externa e a interior, de Ródia. A que assume como sua a dominação, via violência e barbárie, através da tese de que o direito é coextensivo, normativamente, à força e de que, portanto, os fracos e culpados e perdedores de toda sorte não têm vez é vivida pelo irmão bonzinho, o rapaz ligado à família e adaptado (McGregor). O rapaz mente mas parece ser penalmente inofensivo (ainda que saqueie o cofre do restaurante do pai), até que se apaixona e continua mentindo: vai acumulando débitos em respostas coerentes e se apavora progressivamente. O irmão, Terry, é adicto, de jogo, de boleta, fumante e bebente. Perde e ganha mas se endivida e muito. Também dá passos maiores do que as pernas, mas não é para manter mentira, e sim para suportar a própria verdade: é um mecânico, sem futuro, filho looser.
O tio rico da família (Tom Wilkinson) – mais uma vez o operador da miséria, assim como em Match Point – encomenda o crime prometendo o futuro que Raskolnikov precisava aventar. Ambos os Ródia, aliás. Um, para pagar dívidas; outro, para pagar pelas mentiras e mantê-las, ao lado da amada.
Filme é tão cuidadosamente bem feito e bem acabado que chega a assustar. Absolutamente todos os detalhes, o cenário, a fotografia, a música que vai se tornando difícil, de Philip Glass, tudo vai nos comprometendo e imputando. Este talvez seja o saldo da lecture, enfim: a imputação de um sequestro de que todos somos cúmplices. Um sequestro que termina, invertendo as coisas, tornando o real um destino, já que a evasão pelo crime e pela covardia se apresentam como única saída.
O Sonho de Cassandra também me lembrou uma máxima fáustica, com a qual Goethe expressa o esgarçamento brutal de um sujeito que celebra um mau pacto: “Duas almas, habitam em meu peito; e cada qual está ávida por abandonar sua irmã!”. Woody Allen, através da ligação que estabelece entre nós e o personagem atormentado e fragilizado, talvez a única coisa não-mentirosa em toda a coisa, de Terry (Farrell), dá tratamento generoso frente à organicidade do sofrimento, ao comprometimento integral, à entrega da carne, com e nesse personagem. Um olhar tão obediente a si que se torna normativo, como se nos dizendo, sobretudo com o desfecho do filme, que a escolha esquizofrenizante, duplicante e covarde só pode conduzir a vida como tragédia. Como um sonho de Cassandra.
(ou: sobre Caseros – en lá cárcel, de Julio Raffo (Buenos Aires, 2001))
É a realidade, não a imaginação, o que pode surpreender-nos. Alguém já disso isso, certamente, mas não posso citar. A imaginação tem menos com a construção do que é atualmente impossível do que com o que fazemos com nossas possibilidades mais vicárias. A capacidade da violência, essa marca da humanidade, é um buraco negro irredutível às mais ricas criações das mentes e corações. Faz tempo que isso me aperreia, a violência.
Aquelas notícias com as fotos três por quatro de pessoas que nunca parecem pessoas, nem os algozes, nem as vítimas. Talvez essas fotos estejam ali porque alguém que não é monstro nas redações está, sorrateiramente, avisando-nos para mirar melhor as demais fotografias do entorno dos jornais, vá se saber.
Estas palavras soltas são parte de uma experiência cotidiana e espalhada de violência. Estão portanto contaminadas pela explosão midiática e talvez não sejam muito mais do que uma expressão refém dos medos investidos com verbas publicitárias de chocolate. Vá se saber.
Quando uma ditadura, qualquer que seja, decide torturar para governar, a violência é invertidamente mais clara. E as palavras possiveis são tao escassas como o são as informações midiáticas.
Penso muito sobre a dificuldade de escrever decentemente sobre a irredutibilidade da violência. Sobre o que necessariamente escapa e não pode ser traduzido, nunca, da pancada que atravessa a carne, rasga e humilha. As palavras não chegam perto das paredes da derme que são dilaceradas por uma faca, ou por um garfo, ou por um tiro. É claro, Dostoiévski chegou lá e nunca mais o mundo foi o mesmo para quem o leu. Quem nunca sentiu o cheiro úmido e podre de São Petesburgo no verão raskolnikoviano não entendeu Crime e Castigo. E quem não teve vergonha de ser humano diante da descrição do espancamento do cavalo que Raskolnikov faz não pode nunca ter continuado a ler esse livro.
Vamos lá, pergunte quem sou eu para dizer que você não entendeu Crime e Castigo!
Flavio Koutzii, amigo e camarada, emprestou um dos DVD's de sua coleção da cinematografia da ditadura argentina. Como se sabe (podemos saber?), Flavio sentiu na pele, no peito, na alma e sei lá mais onde, do que se faz a violência focada, engenharizada, eficiente e calculada de um regime militar. O filme é sobre a última jaula onde ele foi aprisionado, chamada de Caseros. Uma jaula frente a qual Foucault ficaria surpreso: não tem paranóia panóptica que chegue aos pés do que os funcionários da ditadura argentina construíram. Um lugar projetado para retirar a miragem do céu e a percepção da garganta se mexendo.
Em 2001 esse prédio que transformaria Foucault num projetor de Legos panópticos foi demolido e Julio Raffo fez um documentário com sobreviventes dessa jaula surpreendente. Quase vinte anos depois de libertos, os ex-detentos voltam e falam, algumas vezes dentro das ex-celas (celas???), o que passaram – ou algo do que -, do que perderam – como o companheiro Jorge Toledo, que sucumbiu a uma depressão a ponto de ser assassinado sem trabalho extra de tortura – e do que fazem e são.
Gente como a gente, que sente o cheiro úmido das tabernas sãopetesburguianas em que Raskolnikov não tinha como comer.
O documentário tem seu momento mais dramático no relato feito por Hugo Soriani – hoje gerente do valoroso Página12 – da morte de Jorge Toledo. Um relato, segundo ele, falado pela primeira vez. Ele estava morrendo, Toledo. Morrendo, como diz Graciliano Ramos, de morte. A ditadura e a tortura e o cárcere utererê moderno uber alles venceram sua alma e quebraram sua coluna moral. Ele não levantou para ir ao refeitório e apareceu suicidado logo depois. Soriani conta, discreto e com os olhos inundados e oceanizados, que naquela noite os militares serviram um jantar especial, com direito a carne. Ao som, durante toda a noite, de marchas fúnebres.
Um dos facínoras que estruturou essa prisão que pôs Foucault no seu lugar infantil foi o Ministro Videliano da Justiça, Alberto Rodríguez Varela. Um sujeito que, quando do fazimento do filme, em 2001, ocupava um alto cargo na OAB de lá da Argentina e era consultor de empresas.
Fui caminhar no parque perguntando por que Varela não havia sido morto. E imediatamente esse sentimento foi reprimido por um susto. Estaria, então, ficando velha, cristalizando raivas, enrijecendo juízos que são vinganças e não pesando as coisas num sistema de pesos e medidas razoável ou quando menos maleável?
Na inauguração dessa jaula Varela disse: “Com a inauguração desse cárcere (...) a República Argentina põe em evidência ao mundo a fidelidade a uma tradição jurídica e política que remonta aos tempos do começo de sua vida independente. Que se orientou fundamentalmente pela consolidação dos direitos e garantias individuais. (...) Um cárcere, com suas modernas instalações, constitui uma afirmação tangível de princípios fundamentais de nossa organização política”.
Por que não foi vingado?
Qual é o mesmo o fundamento para esse tipo de gente sobreviver a coisas como Caseros, procriando e caminhando nas ruas impunemente?
Tenho aprendido muito com Spinoza, para quem as coisas da moral são universais ao passo que as da política, não. Irredutivelmente não o são. Mais do que um remédio anti-ideológico, a universalidade dos reclames morais não requer legislação externa alguma, segundo Spinoza. Não requer a bobajada kantiana da máxima que orienta minha ação, tralálá, etc. Mas Kant diz uma coisa forte: o fim do homem é o homem. Mas diabos, de onde vem que se precise de um fim, de uma finalidade? Que fantasia é essa?
Posso aceitar moralmente e mesmo defender não ser equiparada a assassinos e a torturadores e a facínoras em geral como injustos os assassinatos possíveis de Varela e demais videlianos - posso?. Disso se segue o quê, exatamente, quanto a essa certeza esquisita, de que essa gente não merece estar nem ter estado viva, depois do que fizeram ao seu povo e continente? Um argumento recorre à lógica de uma guerra – sim, isso existe. Não é isso o que tenho em mente, penso cá. Outro argumento pode apelar a razões políticas. Posso até escutar e eventualmente levar em conta que se essa gente tivesse sido assassinada a memória desses países estivesse melhor e os defensores dessas barbáries sentissem que não estão no lugar certo. Mas é assim, mesmo?
De onde vem que sejamos habitados por sentimentos vicários ou por certezas vis, mesmo quando sabemos que assim são? Mesmo quando cultivamos o saudável ceticismo quanto a sermos encarnados?
Eu não acredito em perdão na esfera pública. Não penso que perdão e política caminhem juntos. Assim sendo, não há perdão para nazis nem para escravocratas, sobretudo hoje. O tempo conta, certo. Até quando conta e quando é que deixa de contar?
Spinoza abre o capítulo seguinte à apresentação de sua teoria do estado com uma afirmação resignada e lúcida: “As considerações do capítulo anterior sobre o direito universal do soberano e sobre a transferência ao soberano do direito natural do indivíduo estão bastante de acordo com a prática, e é possível regular a prática de modo que ela se aproxime delas a cada vez. Contudo, é impossível que, em todo caso, essas considerações não restem sempre como puramente teóricas. Ninguém, com efeito, jamais poderá, qualquer que tenha sido o abandono que tenha feito a um outro de sua potência e consequentemetne de seu direito, deixar de ser homem. E não haverá jamais um soberano que possa executar tudo o que quer. Em vão ele comandará a um sujeito de ter raiva de seu benfeitor, de amar quem lhe fez mal, de não se ressentir de algumas ofensas de injúrias, não desejar deixar de ter medo e um grande número de coisas parecidas que seguem necessariamente a natureza humana”. TTP, abertura do capítulo XVII.
Granus salis do Século XVII à parte, não parece claro que a falta de resposta à inquietação sentida caminhando no parque faz sentido, sob os olhos de Spinoza e também sob alguma lucidez?
É claro que prescrever o que deve a sociedade fazer ou como uma sociedade deveria ter enfrentando um período pós-ditadura como o foi a da Argentina, com 30mil desaparecidos, é violento. Não pretendo prescrever coisa alguma e por isso abandonei a advocacia possível.
No mais, Woody Allen me ajude, com sua terceira leitura de Crime e Castigo, chamada de Cassandra's Dream. Por ora, aí vai a descrição da “menina mimada do sistema penitenciário argentino”:
1360 celas
140 celas de isolamento
inaugurada em 23 de abril de 1979
Ministro da Justiça do General Videla: Alberto Rodriguez Varela
Edifício: 80km quadrados, duas torres de 22 andares, dois subsolos
Segundo um jornal – não identificado – que aparece no documentário, “Um cárcere feito não para castigar”
Sem janelas e com a mirada para o Rio da Prata interdita.
Demolida somente em 2001.
E a falta de céu para uma raiva. A raiva, vá se saber, que Toledo não teve. É isso?
Fazer o caminho caminhando, como prescreve o sábio e lindo António Machado, exige pelo menos duas disposições difíceis e eventualmente impossíveis. A primeira é a do desprezo pela redenção oferecida fabulosamente pelo mágico de Oz, para resumir; a segunda, talvez mais difícil, é obedecer a si mesmo, como se nossos sis fossem nada mais – nem sempre nada mais, mas quase sempre nada mais – que pesos a conduzir a alma e a discilplinar os passos. Não pesos pesados; pesos, simplesmente, algo corporal, necessariamente corporal e vivo. Deixar-se abandonar em si e obedecer ao que se apresenta, como faz Herzog na direção.
Lembrei da “chegada” de Dorothy, quando entende seu percurso delirante como metáfora e, assim, desperta. Lembrei disso por várias razões, nem todas boas. Como a primeira é muito boa, lá vai a minha gratidão, a alegria sem tamanho de saber que alguém está compreendendo ou entendendo o que se escreve. Não jogo garrafas ao mar. O mar é para outras coisas. Eu escrevo e nisso não vai nenhum projeto além do que aqui sai, nenhuma ambição, nenhuma busca de outra coisa que não a pedra que falta para eu pisar e que precisa aparecer ou ser criada.
Então não é sempre coisa fácil, nem mesmo agradável de ler. Pelo menos foi o que sempre pensei. E talvez nisso residam as acusações de que minha escrita é ruim, perrengue, obscura, metafórica, elíptica, inacessível ou simplesmente idiota – esta última me é a mais simpática adjetivação, vou logo avisando. E se você que está lendo isso tiver enchido com o narcisismo aparente, aqui, vai lá num outro blog mais objetivo, que a coisa aqui está pelo menos bastante subjetiva.
Sem mais delongas, este é um post de agradecimento. Uma tentativa de dizer que obrigada não é estar obrigada, mas comprometida e experimentando esse milagre que é saber, numa acepção muito sutil e frágil, que “aquele que escreve sua história habita a terra dessas palavras”, como disse o lindo, lindo e bravo Mahmoud Darwich. Isto é, que sob as pedras há terra e que o caminho não é fantasia por estar em palavras. Saber-se compreendida é árvore, não parede, para inverter, com zil perdões pelo atrevimento absurdo, o poema de Manoel de Barros, o maior poeta brasileiro depois de João Cabral.
Fosse eu Alice talvez dissesse que algum bicho mágico estava me acompanhando sem que eu visse. Fosse Dorothy, o bicho estaria ali e eu nem nem, mirando as infinitas e incontornáveis impossibilidades de tradução que experimentamos, nem sempre justamente ou nem sempre não-perversamente, na vida.
Idelber Avelar é pessoa rara e intelectual ainda mais raro. Escreve com a alma cultivada e com o compromisso inabalado, tocado apenas para esgarçar-se, se for o caso. Tem um monte de coisas que poderia falar, mas aí iria diminuir as coisas. Essa coisa surpreendente que é saber-se compreendida e lida, mesmo que não haja garrafa alguma, nem palavras ao mar. Como obediência, apenas, como obediência. Agradecendo, caminhando, lendo mais e sentindo a terra atravessar as pedras sobre as quais estas palavras são pisadas. Um abração, meu amigo. Nenhum continente nos afasta.
“Os patrões e o Estado não podem e não querem mais pagar. Não passa pela cabeça de ninguém a idéia de que eles possam desaparecer. Os filhos das cidades, esses palestinos do espetáculo triunfante, sabem que nada têm a perder nem a esperar do mundo com a forma que ele está adquirindo. (...) Não foram eles que escolheram sua condição e têm razão em não apreciá-la. Mas aqueles que os colocaram lá sentirão, e já começaram a sentir, a sua dor.”
Mustapha Khayati, A Miséria do Meio Estudantil, Strassbourg, 1966
A abertura do inventário de Maio 68 constitui fraude porque seu atestado de óbito insiste, por incrível que pareça, em não existir. Essa fraude tem duas facetas que para os protagonistas daquelas “jornadas” - expressão de Guy Debord - muito são parecidas. A faceta dos derrotados na Guerra Fria (com poucas variantes não-nostálgicas nem cínicas), olha para Maio de 68 chocando-se contra si mesma. Consumada a sua juventude, consumados estariam os sonhos e compromissos há quarenta anos inalienáveis e inegociáveis; passados. A triunfante (com poucas variantes não-genocidas nem grotescas), olha para Maio de 68 como mais um dos grandes males e erros “superados” pelo pacote delirante do fim da história. Stalinistas de ontem crêem na democracia consensual e por ela sentem-se responsáveis, quando menos a título de confortável auto-crítica. Já capitalistas e liberais de ocasião buscam fazer a medida dos acontecimentos desaparecer, ao proclamar – em vão - a destruição da história. E Maio de 68 continua a obsedá-los, a espreitá-los.
Talvez o cinema seja a expressão mais lúcida frente ao “segredo de Estado” em que se converteu esse levante, na mídia e nos demais “aparelhos” do espetáculo triunfante. Precisamente porque o filme sobre Maio de 68 ainda não foi feito. Alguém pode objetar, sacando a Nouvelle Vague. Pode-se dizer sem alarde, então, que Godard cinematografa Maio de 68 sempre e que isso, mais do que um dado que ilumina seu cinema, explica que ele sabe por que inventariar esse período é impossível. Guy Debord, filósofo da anti-alienação, vanguarda parisiense do período e também portador de uma das mais lúcidas paranóias tornadas públicas lembrou, nos Comentários à Sociedade do Espetáculo (1984) que “há vinte anos nada é tao dissimulado com mentiras dirigidas quanto a história de maio de 1968”, e que, “no entanto, lições úteis foram tiradas de alguns estudos desmistificados a respeito dessas jornadas e suas origens; mas é segredo de Estado”.
O que pode ser a desmistificação desse segredo de Estado? Quem tem e onde reside a autoridade para falar sobre esse acontecimento, sem mistificá-lo? E que poder é esse que deve, para que as coisas continuem como estão, ser mantido como segredo de Estado? A resposta está na origem das jornadas a que Debord se refere; quer dizer, na sua origem não-temporal, naquilo que uma certa tradição filosófica reputa como sendo o sentido e o fundamento de um momento histórico. Sentido e fundamento não porque se pressupõe um fim na história e um destino dado a despeito das consciências, mas porque é das suas próprias naturezas a característica de tornar uma história possível. Assim, Maio de 68 não habita a história, mas persevera como uma condição para que a história seja habitada, com sentido – coisa que não se confunde com finalidade – e fundamento. E por que, qual o segredo dessa condição Maio de 68?
Em primeiro lugar, porque o seu sentido emerge como resultado prático de um compromisso ético que não depende estritamente da história para existir. Compromisso intransigente com a verdade, expressa como a correspondência escolástica e prática entre aquilo que se pensa sobre as coisas e aquilo que as coisas são, também – mas nunca somente – porque estão sendo pensadas por quem tem esse compromisso. Essa correspondência, assim, só ocorre quando se sabe o que se está fazendo e o que se é; na vida, na Política, na história.
A verdade, nesse contexto, tem uma espécie de teoria: a teoria da anti-alienação, da tomada de consciência de que se é parte de um todo que lhe diz respeito e que, sobretudo, depende de si, inclusive para existir. A verdade temerária de Maio de 68, portanto, é que seus protagonistas sabiam o que estavam fazendo e eram leais ao que sabiam. Em toda parte, França, Brasil, Cuba, Chile, Congo, Los Angeles e Tchecoslováquia, eles sabiam o que estavam fazendo, quem combatiam e o que queriam. Não é preciso filosofar para perceber que esse compromisso faz sentido ontem, hoje e sempre e que, portanto, não é destrutível pela marcha histórica, seja em que perspectiva for esta considerada.
Em segundo, porque esse sentido a-temporal de compromisso ético frente ao que se sabe e ao que se quer estabeleceu um marco para uma certa perspectiva histórica que não tem fim. Em vez da crença numa finalidade, a constituição de uma razão, de um porquê, lutar, resistir à barbárie e enfrentar todas as formas de opressão. Uma razão para fazer história e para que esta seja habitada com verdade e ética. Mais do que o resultado de um somatório de consciências rebeldes pelo mundo, Maio de 68 – isto é, aquela década – persevera como o fundamento de uma história consciente, espécie de lição de incerteza e de abertura.
Em 68, especialmente, aconteceu aquilo que Kant chamou de “acaso feliz”, se assim se pode dizer: aqui, um encontro da consciência atenta e leal a si com a marcha dos acontecimentos que a determinam e ultrapassam. A partir desse encontro, não há, mais, fim da história, nem fechamento arbitrário de época, tampouco sol mágico a nascer socialista.
Descrever Maio de 68 sob a rubrica do acaso não deve assustar nem indignar. A melhor definição de acaso (aristotélica) é a de encontro de duas séries causais. Aqui, essas duas séries podem ser tomadas como a tomada de consciência de uma juventude e de um pensamento livre com a derrocada de um mundo político e social opressor, violento, colonialista, ditatorial, refém do encarceramento ideológico e de seus monstros. Acaso feliz: as consciências libertas da alienação burocrática, espetacular e mercantil combatem, sem tréguas nem negociação, a ordem de coisas que as esmaga e lhes rouba o tempo. Ordem de coisas que, esta sim, ficou para a história como passado, porque não foi mais a mesma, apesar do que lhe seguiu imediatamente. Como se sabe, em boa tradição fundamento é um princípio divisório; um princípio que aqui está sendo tomado como condição para uma história; para uma outra história.
Com base em quê, além dessas notas teóricas extravagantes, pode-se dizer que esse sentido e esse fundamento de Maio de 68 não estão mortos?
Aí vai um pequeno rol de sugestões não-aleatórias: a Palestina segue ocupada desde 67 e recentemente um ministro israelense prometeu aos habitantes de Gaza um Shoah. O Iraque está ocupado depois de uma invasão militar de proporções históricas devastadoras. A África agoniza entre guerras, fundamentalismo religioso e doenças que dão lucro a grandes corporações multinacionais. Na América Latina, a elite crioula boliviana não aceita que o país seja dono de seus recursos naturais e menos ainda ser governada por um índio cocalero e Cuba está a extinguir a pena de morte. Um dono de império comunicacional tomou a Itália para si e Sarkozy é eleito presidente da França. Os lacaios do latifúndio continuam roubando, tendo privilégios e matando impunemente. Tony Gatlif faz cinema e Godard também, segue fazendo. Um negro, advogado dos direitos civis, senador que votou contra a invasão do Iraque, será eleito presidente do império, contra Bush e as grandes corporações e seus lobbies.
A democracia tem dado provas de que é o respeito e o enfrentamento de conflitos, e não o consenso, o que a caracteriza substancialmente. “As coisas estão no mundo”, como diz Paulinho da Viola, e Maio de 68, também.
Saber o que se faz e ser leal ao que se sabe, tornar o acaso um ponto que impossibilita o retorno e, então, torna a história possível. A mais luminosa, generosa e livre possibilidade. É por isso que toda tentativa de inventariar Maio de 68 não pode passar, também nas palavras de Debord, de gracejos ditos em jornal. Não há balanço do que não se pode inventariar, porque não há óbito do seu sentido nem do seu fundamento.
Por mais difícil e obscura que tenha sido a quadra recente da história, em termos de derrotas e das vitórias cinzentas e mediadas para aquém dos nossos desejos; e que o racismo e a tortura tenham se tornado práticas globais; por mais que a tragédia e as explosões de corpos e países e povos abundem em nossas televisões, corações e mentes; e que o roubo intermitente de sonhos exija vigência, Maio de 68 está aí, a obsedar, a espreitar.
A continuação do texto – um dos mais célebres que ajudaram a deflagrar esse levante – citado na abertura deste, meu, termina com um lembrete profético para os dias que correm e por isso também merece ser referido: “A potência do espetáculo atual reside no fato de que ele governa não apenas o mundo que ele produz, mas também os sonhos que as suas vítimas criam para escapar de seu reinado. Esses sonhos de hoje não passam, na realidade, dos pesadelos de amanhã. Pouco importa (...), o sistema dominante continuará a se construir contra todos. Eles podem optar por se tornarem cúmplices de seu próprio infortúnio. Mas devem pelo menos saber que não receberão nenhuma recompensa”. O grifo é meu.
Por fim, em 68 eu não existia. Vinte anos depois, adolescente, descobri que uma pessoa muito admirada e amada da família foi barbaramente torturada pelos agentes da ditadura militar brasileira. Dez anos mais tarde, conheci Flavio Koutzii e pouco depois Raul Pont. Na semana que passou, no Senado Federal, percebi e entendi por que ter Dilma Rousseff na Casa Civil do Governo Brasileiro é um valor em si mesmo; quer dizer, que essas pessoas e vidas e dignidades fazem sentido e têm fundamento, para uma outra história, contra o reino do espetáculo triunfante.
Este texto é para vocês porque, nos momentos de maior ira e irracionalidade, em barricadas ou sob tortura e diante das mentiras que assolam os dias e noites que correm, algumas coisas jamais foram, nem serão, destruídas. Entre essas coisas, com o perdão do atrevimento, está uma certa maneira de predicar a existência. Uma maneira de existir, sem o menor risco de conivência com a mesquinhez; uma maneira de existir com sentido e com razão. Então, eu existo, também por causa de Maio de 68.
Tinha ido a Espanha a convite da Carta Maior, para escrever. Dissertação terminada, aquele alívio que não se frui, estranhamente. O Fórum Social Mediterrâneo iria acontecer em Barcelona. Poderia chegar uma semana antes e visitar uma amiga que estava terminando o doutorado na Universidade de Sevilla, Laura Beck Varela. Em Sevilla, passeamos e curtimos a matança da saudade num circuito de quase 10 horas ininterruptas. Andamos pelas ruas e arredores que me pareciam uma contrafactual psicogeográfica de um certo Recife. Aquela certeza de que estava, enfim, percebendo o que João Cabral tinha transformado em poesia. Laurinha tinha feito a qualificação e se saído excelente, claro e mais uma vez; a isso também brindamos.
Tudo tão intenso que, tirando os calos nos pés, era como se não tivesse corpo. Naqueles dias a vida usava o corpo, exaurindo todos os relógios, etapas de metabolismo, músculos, estoque de risadas, fofocas, surpresas e descobertas. Falar da abundância da Andaluzia, depois de alguns dias lá, é meio ridículo. Eu simplesmente só posso falar da contaminação e da sorte grande de ter comprado um livro sobre a arquitetura do islã, uma fantástica arquitetura religiosa. Livro de Titus Burckhardt era a companhia, depois da partida de Laurinha, na cidade psicogeografante do corpo.
Olhando para trás, isso foi logo ali, em junho de 2005. Essa expressão de psicogeografia corporal, porém, vale o quanto pesa. E o seu peso foi surpreendente. Descobri, numa manhã em que perdera o horário do desajuno, na mesa de uma padaria do bairro Santa Cruz, que era suda. Isso foi antes de comprar o livro sobre arquitetura. Estava lendo, inocentemente, o El País, tomando um café passado há mil anos. E peguei um texto de Sergio Ramírez sobre o que estava se passando na Bolívia, onde emergia uma grande novidade chamada Evo Morales como candidato a presidente do país. Um índio cocalero. Tenho de confessar a babaquice que cultivava, inclusive negando, que aparece num ar blaisé, supostamente bem informado e, claro, “um tanto cansado” disso que alguém disse que era a América Latina e do Sul. Para piorar minha imagem que, sim, quanto a isso era de pura idiotia evidente, abri o texto de Sergio Ramírez sobre a Bolívia e a revanche da elite da Santa Cruz boliviana contra o levante indígena no país, com um ar cretinamente altivo, "supostamente" suda. Na minha ignorância atroz, pensei para mim: “vamos ver o que esses europeus dizem da Bolívia e de 'nós'”. Isso aí: não conhecia Sergio Ramírez e só fiquei sabendo que tinha sido vice de Ortega, em 1984, ao fim do texto.
Um sandinista me contou, sem o saber, que eu sou suda, lá na outra Santa Cruz.
E que texto extraordinário. Era um apanhado do ressentimento e da ira da elite crioula boliviana contra o índio Evo. Uma análise sóbria e com lado, radical e de clareza meio impressionante, pelo menos para aquela alfabetizada no preconceito que descobrira novas sílabas e conjugações, o café já frio, abandonado. Ramírez falou da tentativa de “emancipação” do Departamento de Santa Cruz como uma variante possível, naquelas alturas, da ira e do ódio das elites crioulas contra o povo. Uma comparação com nossa herança portuguesa não pode ignorar esse ódio, mas o catolicismo espanhol teve peculiaridades caras aos andinos e aos mexicanos. A igreja católica também desempenhou funções de banco na América espanhola. Além de formar a elite crioula e de salvar os índios da maldição do paganismo, com generosidade e tolerância, emprestavam e financiavam o desenvolvimento das colônias. Inquisição financista, talvez se possa dizer, retrospectiva e nem por isso arbitrariamente.
Crueldade refinada e impregnante como a religião monoteísta, penso cá; será? Mas quero dizer é que o texto de Ramírez me devolveu ao meu corpo alí, naquela padaria do bairro de Santa Cruz, em Sevilla, naquele junho de 2005. Sou suda, pensei; é assim mesmo como diz Ramírez, ao denunciar o racismo, a ira e o vergonhoso não-reconhecimento dessa elite perante os índios e também negros. Isso que a América espanhola sempre fez sem negar, pelo menos diante de nossa cordialidade malvada, tipicamente brasileira. E contra fatos, aqueles fatos ali percebidos, só há ideologia, pensei. A viagem da contrafactualidade de João Cabral, caminhando e sendo caminhada por Sevilla, psicogeografia pregnante de encantamento e resignação, assim, ao mesmo tempo, foi substituída por algo mais definido, mais corporal. Suda.
Pouco mais de um ano depois, um amigo me apresentou a excelente coletânea escrita por historiadores, a maioria ingleses, “História da América Latina”. A historiografia inglesa se debruçou seriamente sobre a América do Sul e fez um trabalho muito mais do que decente. Mais um tabefe anti-classe média educada para desprezar a sudamérica: os historiadores ingleses não têm problema algum em situar o papel financista da ICAR e o vínculo dessa atividade bancária com a Santa Inquisição espanhola. Não têm, tampouco, “pudor” em tratar elites crioulas como aquilo que elas são, desde há muito: predadores mesquinhos, sacoleiros estéticos, “formigas” morais, pedras de generosidade, poeira de fé.
Descobri que era suda e, depois, o quanto havia sido bocó e educada para ser bocó. E que ser bocó é, desde sempre, acreditar como obediência, confiar no que não tem fiança, aqui. E que levar a história a sério não “serve” apenas como esclarecimento a respeito de uma conjuntura, mas esclarece quanto a si mesmo. Quanto ao que se é. E que se não for assim não é história.
Suda.
Tudo isso lembrei hoje, neste fim deste abril de 2008. Lembrei do dia em que descobri que era suda e do sentido corporal, determinado, impregnado, desse adjetivo. Porque no próximo dia 4 de maio a elite crioula, retratada pelos historiadores ingleses nos mesmos moldes estruturantes desde o século XVI, estará fazendo um plebiscito para se “emancipar” dos índios bolivianos. Para se “libertarem” de Evo Morales. Para se “livrarem” da sudamérica, uma vez mais, como sempre. Sempre? Eles querem separar a Santa Cruz da Bolívia, agora que a Bolívia deixou de ser seu quintal de mucamas e serviçais. Não conseguirão, quero crer.
Como sou suda, vim aqui. Devolver o que eu sou, retornar o desprezo e dizer da amorosidade que aprendi a obedecer. Suda. Eu sou suda e estou com Evo.
Conheço uma mulher que disse jamais ter gozado como quando sofreu um estupro, anos atrás. Uma amiga, violentada durante mais de dois anos por um tio, quando tinha de dez a doze anos, disse-me, aos prantos, que era cúmplice daquilo.
Há uma perspectiva psicanalítica que busca esclarecer essas coisas dissociando o gozo do princípio do prazer, à medida em que este é vinculado à realidade e, aquele, à fantasia. O universo da fantasia, diz-se, é amoral. Logo, a investigação sobre as motivações do gozo em situação de violência ou sofrimento reside em “localizar” de onde vem o gozo do sujeito x. Aí, pode-se saber algo a respeito da perversidade e das perversões que animam as coberturas e silenciuras policiais.
Como não sou psica, não prossigo com isso. Não ouso investigar de onde vem que gostemos ou que façamos ou que simplesmente gozemos com o mal. Fato é que essas coisas existem, estão aí e aqui.
Ontem, durante a heróica vitória do Internacional, lá no Beira-Rio, essa constatação veio corroborada pelo que um amigo disse: “estão fazendo isso desde o tempo dos gladiadores. Não mudou nada.” As conversas filosóficas originadas modernamente a respeito da natureza humana importam em nada a este texto. Se é certo que árvores não estupram e que leões não mentem, também é fato que do nosso mal não se segue, necessariamente, uma tese possível quanto a nossa natureza. Natureza é da ordem de coisas que não suporta nem pode suportar bem e mal.
As gritarias, a ira, o descarrego, literalmente, de toda angústia ou vazio, chegavam a ensurdecer. Neófita de estádio, fui sem radinho; o resultado é ter de passar o jogo com os ouvidos tapados. Pois chegou a doer, de tanto grito. Sim, a experiência do jogo, do 5 a 1 cavados, lutados, suados e harmonizados, foi extraordinária. Mas a turma que não se julga nunca má estava lá, assombrando - gozando.
É uma turma que, tivesse gozado num estupro, negaria, oops, denegaria. E que jamais confessaria alguma cumplicidade a uma amiga, a respeito de um abuso sofrido.
A ânsia espetacular e mercantil vive assassinando crianças e estimulando a barbárie. Em lugar de jogar câmeras e jornalistas no chão e enviá-los aos seus infernos devidos, seja verbal, seja imageticamente, a turma assombrada os obedece. Sempre tem o patife de ocasião a se pôr enlutado, a descarregar a própria covardia perante a criança alheia. A criança alheia sempre é mais bonita, inocente e imaculada que as nossas. Essas nossas crianças!
A criança alheia nunca habita a casa desses zumbis do espetáculo triunfante. Elas apanham, são humilhadas, aparecem em comerciais de banco, vendem cartão de crédito, são violadas, ficam com fome, sofrem de abandono, de ciúme alheio, são surradas. A atual CPI da prostituição infantil não levantou uma medida sequer, nem por qualquer parlamentar de esquerda, visando à interdição da presença de crianças em comerciais. Alguém me explique por que vender cartão de crédito na tevê é menos pornográfico que espancar uma criança ou que torturá-la jogando-a na frente de tevês, assistindo a como se deve encher a barriga de balas, plástico e vazio.
Tudo isso é óbvio, como se sabe.
Pessoas sérias sabem que infância é invenção. Que perversidade como prerrogativa de adulto também é invenção e, neste caso, falácia. Há crianças perversas e há velhos perversos. Disso não se segue naturalização nem inimputabilidade, logicamente. Disso se segue que a inocência não é uma noção moralmente privilegiada. E ninguém que faz e cria, “cuida” e diz amar crianças, velhos e adultos tem o direito de se dizer, em princípio, inocente.
No meio de um espancamento corriqueiro pode-se matar e morrer, numa espécie diária, meio Jornal Nacional, de dolo eventual cotidiano. Numa briga violenta dentro de casa alguém pode ficar lesado no corpo e indefinidamente lesado na alma. Morrer, alguém já deve ter dito, diz-se e faz-se de muitas maneiras. E a referência é uma só: a perda de si mesmo na miséria; da televisão, dos jabás de rádio, da música pornográfica que assola o imaginário popular brasileiro especialmente, dos jornais e revistas triunfantes, da mentira, do desalinho ético, estético, político, econômico...etc etc.... Tem de padre pagodeiro a cineasta financiado pela ditadura militar a condenar e a acolher a tal da inocência eventual. Comentaristas de ocasião que nunca sofrem perante a própria peçonhice. Místicos que condenam o sexo para mascarar estupros, corporais e nem tanto.
Aposto um abraço bem apertado e um muchocho com quem duvida que as senhôras que fecharam 105 escolas e pelo menos um coral infantil estaduais estão sinceramente comovidas com as crianças alheias, dessas que estão “lá”. Aposto um brigadeiro morninho com que duvida que as crianças sem comida na Faixa de Gaza, agora, e as crianças ali da Vila Cruzeiro e as crianças e cadáveres nem tão adiados assim de Darfur, aquelas criancinhas lindas daquele edifício arborizado em Petrópolis estão a comover esse tipo de gente boa, precisamente por sua “aleatoriedade”. Alheiatoriedade é mais preciso.
Importa é quem está matando. E como. E por quê.
Isso não se responde por especialista, nem pelos melhores servidores públicos possíveis, nem por comentaristas de aluguel, menos ainda por quem acredita no que enunciam os inúmeros lixos midiáticos. Isso se responde por quem leva as crianças, os velhos, as árvores e as palavras a sério.
Para vovó Sula, in memoriam, e para todos os que também estão perto
A imagem do sertão, depois que se cultiva o hábito de caminhar sob árvores – sobretudo mirando a possibilidade do mundo invertido, realmente, no qual o céu é chão -, é estranha. O sertão é deslumbrante. Não é a bocozisse nacionalista anos cinquenta quem fala. O sertão é uma imensidão de chão rachado, de árvores eufóricas diante de meio dia de chuvinha – solo fértil, muito fértil -, de calor intraduzível, de lunaridade. Deve ser isso, a lua, aquele deserto de árvores que poderiam ter sido ou que foram e que, quem sabe, talvez venham super animadas, a seguir. Agora (neste agora), estão muito secas, apesar da enchente (nesse agora), que assola o sertão. Deslumbrância, alguém já deve ter dito, só conhece excessos. E incompreensão. Lembro agora da cena: íamos para Fortaleza para, de lá, chegarmos em Jericoacoara. Atravessamos o sertão cearense e parte do do RN. Fora os postos de gasolina raros, tinham uns caras, a cada 30/40 quilômetros, pendurando tatus para vender aos viajantes. Tatus ameaçados de extinção. Minha amiga Van se indignou: os tatus, esses especialmente, estão ameaçados de extinção. Também no sertão tem muito lixo plástico ao redor das cidades. Tem lixão, sem catador nem reciclagem.
Lá no sertão, lembrei manhazinha da última terça-feira, tem também muita barbárie. Ao contrário do lirismo classe média do sudeste brasileiro, o sertão não é lugar de gente linda, mas de gente rachada, metafórica e não metaforicamente falando. O problema não é buraco na camada de ozônio; o problema é a relação, a natureza da relação, com a morte, a ausência e a perda. A sequidão de Graciliano, o seu compromisso imperioso diante da verdade, é a coisa mais próxima que há da descrição do que se trata o sertão. Esgarça a língua, estica a forma e não desata, só retesa. Porque retesada é a vida, ali, sem que o limite seja parido pela subjetividade. Faz-se filho porque filho é para saber que se está vivo. Assim, viu? É assim.
Sou bisneta de uma índia do sertão pernambucano, Sulina o seu nome, que contou e ensinou coisas, a maioria lindas, sobre o sertão. Lá é assim e o povo sorri incompreensivelmente. Vovó Sula me ensinou a subir em árvores; o detalhe é que ela já estava com 86 anos e nós, eu e meu irmão e primos, com, no máximo, 7. E ela, lá em cima, a nos xingar. A gente “não dava nem para subir em árvore e pegar fruta”. Lá no sertão tem de se saber algumas coisas, a gente aprendeu – e, como naquela época a alegria vinha de graça, falando sem dinheiro na cabeça, não pensávamos em aprender outra coisa.
Lá no sertão oligarquias mandam, mesmo. Com e sem voto, as oligarquias existem e matam adoidadamente. Para muito além do refinamento descrito nas teorias da cordialidade e do patrimonialismo – ou aquém? -, lá o tempo que passou resiste como eterna promessa do futuro. Minha falta de respeito em relação ao papel de Ariano, alô, querido Idelber, tem com isso. Resiste como fora do tempo; este que, bem dizer, lhe é resistente.
Diabos, foi para isso que vim aqui, hoje, neste fim de dia em que descobri, desolada, a safadeza que a Apple fez com meu ipodzinho shuffle? Putz, e pensar que milhões de leitores, a maioria altamente consternada com o destino de minhas palavras e com meu indubitável poder, enviaram trilhares de mensagens solicitando meu retorno! Para isso?!? Camõn, Katarina! Eu volto, desde lá no sertão.
Lá no sertão é terça-feira manhazinha
Então, lá no sertão tem pistoleiro, oligarquia a saquear o estado, a bater, torturar e humilhar quem se rebela e tem também, claro, gente para avacalhar com o serviço público, que ninguém é de ferro. Orgias com dinheiro costumam não caminhar juntas com trabalho, republicanismo e respeito. Lá no sertão nem escravidão teve, pode-se dizer sem altivez, porque não havia nem houve monocultura para exportação.
O cultivo, lá no sertão, é da rachadura, do cacto e da encarnação da terra. A referência à naturalização das coisas, se alguém está se ocupando de ler isto, é uma só e não é pejorativamente retórica. Há algo (alguém já disse isso) de não-intimista nem biográfico nas metáforas.
Terça-feira manhazinha, tipo seis e meia, sete horas, o sertão retornou, como açoite.
Parte da naturalização de que estou tentando falar reside naquela barbárie que Brecht viu – mais uma vez -, na Ópera dos Três Vinténs. A barbárie na alma e na sua extensão, dentre os injustiçados pela barbárie. A comprovação teatral – sem o socratismo estético denunciado com razão por Nietzsche – e histórica de que violência pare violência, de que sofrimento produz sofrimento. Pois bem, leitores amigos, inimigos e fãs de toda ordem: lá no sertão a barbárie se consubstanciou em acontecimento. Sem metáfora, sem retórica; sem entusiasmo e sem qualquer alegria.
Já na segunda à tarde havia a notícia. A amiga liga, voz em pânico, dizendo que testemunhara uma execução, numa vila para onde tinha ido fazer uma matéria numa Ong. A matéria, eu digo, era uma das variantes utilizadas para disfarçar o fato de que a secretária fechou 105 escolas estaduais, no estado. O maior jornal daqui trata esse fato com notícias positivas sobre uma ou duas escolas e sonega os prejuízos para alunos, familiares, servidores públicos de 105 escolas. A realidade, como a morte, espreitou o espetáculo e, desta vez, num trágico milagre narrativo, atropelou a mentira e esmagou a esperança dos bocós que acreditam na linha editorial de certas coisas do monopólio comunicacional. Dizer ao telefone que presenciara uma execução não informou o que a capa do jornal mostrou, dia seguinte.
O dia em que, depois de mais de uma hora de caminhada no parque, com o cabelo oleoso e o corpo empoeirado, faltou água. Acordar com o cabelo ensebado e não ter água. E ficar sabendo que assim iam muitos, há dias. Que um conserto deu errado, sem mais explicações, e que 16 bairros ficaram se água. Sem água, igual a lá no sertão, onde a demanda por saneamento parece lorota de ficção científica. Outra coisa que açoita, há meses, é o cheiro de cocô, nas calçadas e no parque. Há quem, conta Brecht, diga que isso não passa de frescura: mas caminhar sob o cheiro de cocô ou cola é meio desagradável e, bem, lá no sertão não tem isso.
Então eu volto. Estava lá na capa, a foto da execução. Mais do que o risco de morte da amiga, que causa aquele desabrigo estomacal, está a surra da realidade. O desabrigo que a realidade impõe, sob o mundo invertido. A morte de um homem, o tiro no outro e um jovem armado, em nossa direção.Lá no sertão se tornou a frase invasora. Sem água, sem lei, sem respeito.
Ôpa, está faltando a oligarquia, aquela, não-suscetível ao refinamento teórico. Na capa em que a execução é flagrada, testemunhada, captada, nenhuma linha que apontasse a palavra responsabilização. O secretário de segurança, assim como a senhora da educação (sic?), perseveram embolhados pelo monopólio comunicacional. Faz tempo, meus leitores sabem, que não me ocupo em denunciar a desinformação triunfante. Há gente muito melhor e mais talentosa que eu a fazê-lo. Além disso, a luta pelo poder é mesmo uma categoria mais importante ou um modo mais adequado sob o qual se pode observar e mesmo participar das coisas da vida. A desresponsabilização, contudo, parece atravessar a realidade, rachando as pessoas, os rios, as matas e as pessoas, como lá no sertão.
Está acontecendo uma investigação no parlamento estadual gaúcho, sobre uma fraude inédita e histórica no estado. Uma fraude investigada pela Polícia Federal, que envolve uma Fundação de Universidade Federal e a prestação de um importante serviço público. Essa fraude não convive com as denúncias midiáticas de responsabilização e sequer habitam um portal de internet acima do Mampituba. Uma gente que disputa o poder para saquear o estado, não para prestar serviços ou para assegurar direitos e promover o desenvolvimento. Saquear, promover-se, espetacularizar, sujar ou deixar que se suje, mentir; até que uma execução cale o fígado e desorganize o estômago dos que ainda o têm.
E isso não é estranho. Estranho, mesmo, é acordar e pensar que lá no sertão é diferente, assim, sob o engano a respeito de onde se está.
A Palestina andou descansando, depois dos mais recentes bombardeios, e por isso não tem dito muito. Há muito trabalho sendo feito nos territórios ocupados e em breve espero sejam os frutos apresentados depois de uma colheita proveitosa. Então, é assim: não peço desculpas, nem pela ausência recente, nem pela pancada que darei a seguir. Só espero conseguir deixar claro que não se trata de um lamento e que os vigilantes do bom humor triunfante que vive mergulhado nas profundezas dos pires pode ficar tranqüilo. Há derrotas que nos ensinam muito mais do que triunfos comprados.
A OTAN, vulgata que a Unidade na Luta, corrente interna do Partido dos Trabalhadores, recebeu de petistas porto-alegrenses, derrubou a última trincheira que restava. Fontes que não quiseram se identificar relataram a celebração de José Dirceu, Valter Pomar e Jilmar Tatto, ao som de Amigos para Sempre, num restaurante que servisse o espumante à altura do que não se contabiliza. Esses militantes sociais da base do partido derrubaram os caciques de Porto Alegre. Os caciques, precisamente, que não fizeram negócio nem com Marcos Valério nem com o interesse público nem com o patrimônio da esquerda brasileira que jamais se constituiu negociando a confiança.
Desnecessário seria dizer que há coisas que não se vendem, agora que a OTAN tomou conta dessa última trincheira. Pela brutalidade da coisa, o desnecessário emerge como urgência: os caciques daqui não negociam com a base militante da hípica de São Paulo, sobretudo para tirar onda de vítima da direita.
Em tempo: se alguém da tal da articulação estiver lendo isto aqui e quiser comentar algo a respeito de meu eventual sectarismo recolha-se ao seu tamanho e retorne ao lado de lá do balcão da loja recém comprada. Seu lugar não é aqui.
Como se sabe, não sou jornalista nem pedagoga. Costumo respeitar com proficiência a disposição paranóica registrada nos Comentários a Sociedade do Espetáculo, segundo a qual é preciso resguardar-se da pretensão de ensinar algo a alguém. De fato, aprender guarda um certo sentido intransitivo sobre o qual corro o risco de ainda mais incompreensão se continuar escrevendo sobre. Aprender se aprende, aprender se aprende aprendendo, assim, como algo que ultrapassa e contudo depende dos confins da particularidade. Professor é parede; aprendizado é árvore. Escolha sua construção ou sua vida, a esquizofrenia megalômana e tirânica dos que pretendem ensinar e a disposição orgânica e viva dos que pretendem viver e espalhar-se como coisa viva, aprendendo, neste mundo.
Essas notas confusas servem para dois protocolos tranqüilos e certeiros.
Há pelo menos duas coisas graves a serem pensadas. A primeira é a medida da responsabilidade pela fantasia de que a massificação do Estado, transformando-o num grande centro de serviço social, é do que se trata a democratização e a civilidade almejada a título de justiça social e futuro. A segunda, é a medida em que a relação entre política pública estatal e lumpezinato contemporâneo pode ser – se é que pode – estabelecida desde o abismo.
O abismo não é só retratado nas filas de kombis carregando pessoas que não sabem em quem vão votar. Não é só retratado no deprimente espetáculo de uma juventude que grita e celebra o pensamento mágico - ??? – e a irracionalidade como virtudes da política e das eleições. Não é apenas o sorriso do tesoureiro do PT e de uma senhora, que pegou o microfone para condenar Miguel em função de um quase acidente cardíaco que ele sofrera. Não é a louvação da destruição da história. O abismo é a esquizofrenia aparente que vem assolando a possibilidade de se levar a sério tal coisa como um partido político de esquerda e republicano.
Uma das jogadas demagógicas da candidata eleita ontem é ter defendido a ocupação de prédios públicos vazios do centro da cidade pelos sem-teto. Tipo de coisa que é dita depois de ser dito que o OP não é um legado e é ineficiente e não deve ser o paradigma de investimento público-estatal.
De um lado estão Olívio, Tarso, Raul, Flavio Koutzii, Dilma Rousseff, Guilherme Cassel e Miguel Rossetto. Do outro, Jilmar Tatto, José Dirceu, Paulo Ferreira, Júlio Quadros e Maria do Rosário. O espetáculo triunfante celebra a derrota da última trincheira a reivindicar um republicanismo de esquerda, para o país. Um dos desavisados da história e da vida, apoiador entusiástico da candidata eleita, veio certa feita bater boca com um dos nossos. Estava revoltado, isso mesmo, com a vindicação do republicanismo democrático e historicamente fincado, por nós. Gritou que o que estava em jogo, “como se sabe”, para “a esquerda”, era a ditadura do proletariado! Isso mesmo, galera: abismo. A Polícia Federal e seus malditos inquéritos anti-proletariado, humpf!
Estou de volta, aprendendo a alegria no trabalho, no movimento do corpo, na descoberta do espaço e de alguns seres humanos.
Spinoza rules. O seu inegociado cultivo pela tolerância nos ajude a enfrentar o misticismo dos que pretendem ensinar e relatar a mentira e a barbárie como salvação.
Idelber, tu é uma baita criatura e sinto um privilégio imenso de termos estado juntos, sabendo que estamos juntos, pelo melhor do mundo. Pelo espírito, a alegria e o compromisso. Se eu agradecer vou diminuir o tamanho da alegria. Ainda por cima tem filhos lindos e polidos, tão bem educados como quem tem aprumo ético procria. Não nos afastemos.
Clarissa e Eduardo, se agradecer também diminuo as coisas. Vocês foram a única coisa boa desse domingo bizarro. Agradecer pela presença, o amparo e as cervejas, além das risadas, é diminuir. Quando a República calou e o bar fechou, a gente tava lá. Rindo! Vocês são lindos.
Raul, Flavio, Miguel, Paulo, Fernando, Silvana, Luiz Filipe, Guilherme, Jaca, Aline, Beta, Catherine, Fabiano, Mônica, Tarso, Sofia, Marcelo e meu amor: “A verdadeira vida está ausente; mas nós estamos no mundo!”. Bravíssimo!
Fontes que não quiseram se identificar disseram ter visto quatro crianças jogando futebol em Gaza. Como se sabe, jogar futebol é uma atividade tipicamente terrorista, em Gaza, e os ataques cirúrgicos israelenses sabem disso desde há muito. Por trás de cada criança palestina habita um assassino em massa, desses que se levanta, toma um café da manhã, lê jornais, freqüentou escolas, sempre teve saneamento e que, obviamente – por direito divino? – possui território e propriedade. Pois esse sujeito malévolo, travestido de criança, ameaça a única democracia de todo o Oriente Médio e Mediterrâneo, o estado que tem mais de cinco mil anos e que é constantemente ameaçado por essa gente, que, deliberadamente, esconde mísseis sob as meias de suas crianças jogando futebol.
O seu Shoah está garantido, como disse nosso ministro. Não podemos tolerar que só os nossos antepassados tenham tido um shoah, enquanto essas pessoas tão más, tão dispostas a se suicidar, assim, sem mais nem menos, existirem em nossas terras bíblicas.
A ONU, uma das organizações terroristas mais malévolas e demoníacas que jamais houve, acolhe essa gente que só existe porque quer nos atacar.
Mas nós resistimos, sobrevivendo a tudo e a todos os que só existem para serem contra nós que temos o direito de existir, sim!!!!!! Não adianta, seus terroristas travestidos de crianças, quererem nos ameaçar!
[modeironiafuriosaoff]
Uma das grandes frases de A Sociedade do Espetáculo é re-analisada nos Comentários sobre a Sociedade do Espetáculo: “Se uma coisa existe, já não é preciso falar dela”.
A crítica espetacular ao espetáculo, essa que nada mais é que “um conhecimento cínico que faz gracejos num jornal”(p. 170, da tradução brasileira), adianta para a vaidade, e só.
Os cadáveres amontoados em Bagdá, Darfur, Quênia, Paquistão, Afeganistão são-nos transmitidos diariamente, em imagens, filmes e demais “gracejos" do conhecimento cínico. Faz tempo que isso não dói, nem envelhece, nem é feio. Já não é preciso falar dessa coisa, ensina-nos o cinismo triunfante. Israel é uma realidade, segue-se, pois, que as crianças palestinas são terroristas; é esse tipo de mundo invertido que não tolera o que não habita seu palco onde o sol nunca se põe.
Termino com Guy Debord e a recomendação de visita ao site de Idelber Avelar, o Biscoito Fino e a Massa (essa foto vem de lá, inclusive). Sem gracejo. Quem me conhece sabe que minha memória é terrível. Quem tem memória tende a pensar que a memória é uma realidade, penso cá. Mas Guy Debord ajuda a jogar meus mimos auto-referentes no seu devido lugar: o lixo. A amnésia é nota característica do espetáculo hipomaníaco, triunfante e sobretudo anti-terrorista, claro. Diz Debord, também nesse texto: “Na França, há dez anos, um presidente da República – agora esquecido mas, na época, pairando na superfície do espetáculo – expressava, ingênuo, a alegria que sentia ‘ao saber que viveremos a partir de agora num mundo sem memória, onde, como na superfície de um lago, a imagem afasta indefinidamente a imagem’. De fato, é cômodo para quem comanda os negócios e sabe manter-se nessa posição. O fim da história é um agradável repouso para todo poder presente. É a garantia do sucesso absoluto de todos os seus empreendimentos, ou, ao menos do rumor do sucesso.” (p. 177).
Do rumor do sucesso. Esse que, desinvertendo as coisas, aparece com a força de uma explosão, de um ataque, do extermínio.